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Demolidor Renascido: Segunda Temporada

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Entre o dogma cristão e a corrupção política, Demolidor Renascido questiona a fé inabalável e as nuances das pessoas em um mundo corrompido.


Assim como na tradição cristã, Demolidor renasceu em sua primeira temporada sob os olhos da Disney. Mas, o que o obrigou a retornar foi seu nêmesis, o Rei do Crime, que abraçou toda Nova York como prefeito, transformando-a no inferno pessoal de Matt Murdock que, assim como Dante Alighieri, teve que enfrentar os pecados de sua alma. Com Wilson Fisk controlando tudo, o Demolidor e aqueles à sua volta enfrentam o desafio de se deixarem corromper ou seguirem fiéis aos seus preceitos.

A figura de Karen Page é a representação das duas temporadas até aqui. Ela enfrentou sua própria queda e renascimento, moralmente afetada por tudo o que aconteceu consigo. Ela perdeu sua bússola moral e entra em conflito com um Matt que ainda acredita no sistema, que, mesmo quebrado, é capaz de trazer alguma justiça para esse mundo. A fé inabalável do personagem é o que lhe resta para salvar todos aqueles que o acompanham, mesmo os que, aos olhos de todos, parecem não ter salvação.

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A relação do Demolidor com o cristianismo vai além de sua figura como o demônio de Hell’s Kitchen, refletindo-se na forma como ele encara o mundo. Ele se entende como uma figura fraca e falha, equipara-se a seus inimigos, aceita suas penitências e as supera. Matt nunca foi o herói imbatível; essa temporada de Demolidor Renascido o mostra talvez em seu pior momento e como essas complexidades o constroem. Quando sua moralidade parece fraquejar, e ele não consegue encontrar a luz, ele pede a Santa Lúcia: “pela luz da fé que Deus te concedeu, aumenta e preserva essa luz em minha alma para que eu possa evitar o mal”. E, quando tudo parece perdido, quando o impossível e a solidão alcançam não só a ele, mas também seus inimigos, quando a justiça da terrena não parece suficiente, ele recorre a São Judas Tadeu: “São Judas Tadeu, padroeiro das causas impossíveis e dos casos perdidos e desesperados, rogai por mim, estou muito desamparado e sozinho”. A fé é o que o mantém vivo, junto à compreensão de que existe o perdão e de que o mundo não é feito apenas de bem e mal.

O Mercenário funciona como a intersecção entre Karen Page e Matt. Ele faz com que Karen enfrente seus pecados e o que precisou fazer no passado, a necessidade de ultrapassar a linha da moralidade que Murdock tanto defende. Ele é a ponte que pode arrastá-la para o inferno de uma vez por todas. Por outro lado, testa a religiosidade do Demolidor: um homem que fez algo tão abominável merece perdão? Isso não só coloca em perspectiva o que ele acredita como herói, mas também sua religião. Benjamin Poindexter é o centro gravitacional que guia as escolhas dos dois protagonistas e dita até que ponto eles estão dispostos a ir para salvar a cidade e suas próprias crenças.


Fisk, obviamente, é o verdadeiro demônio dessa história. Em sua figura, a série não escolhe se acovardar, como muitas produções, mas se utiliza de sua atual posição política para criar paralelos com o mundo contemporâneo. O governo fascista do Rei do Crime justifica a perseguição de minorias em prol de um bem maior, de uma cidade limpa e perfeita, enquanto a corrompe internamente. Todos os seus atos são legitimados através da propaganda, com a mídia como arma para manipular as massas, e com seu próprio meio de comunicação sendo retratado como o único confiável. A escolha de personagens imigrantes sendo trancados em jaulas e perseguidos não é deliberada por acaso; a produção opta por espelhar o que acontece na sociedade, como ela está adoecida e como o medo e a repressão são armas de controle extremamente poderosas. 

A retidão de Matt Murdock o levou onde está hoje. Ele escolhe combater seus inimigos dentro da justiça, seja por sua moralidade cristã ou pelo que aprendeu na faculdade de Direito, deliberadamente optando por não se corromper como o Justiceiro, que, apesar de não ser uma figura presente fisicamente nesta temporada, deixou marcas que Karen carrega e que obriga Matt a confrontar. Não existem caminhos fáceis para ele: utiliza-se de suas armas como pode, não apenas fisicamente, mas também através da lei e do que considera correto. Ele quer contar a história certa e chegar ao final redimindo não só seus aliados, mas também todos que, de alguma forma, cometeram erros.

Wilson Fisk é um buraco negro que absorve tudo ao seu redor; ele não para de se alimentar e sempre deseja mais. O Demolidor é essa mesma força inabalável, e tudo é destruído quando os dois colidem. Essa colisão gera talvez a melhor produção da Marvel em muito tempo, sem medo de refletir o mundo, sem receio de mostrar esses personagens em seus piores momentos e de expor que seus vilões não são apenas o mal puro, mas sim uma construção e um reflexo do lugar de onde vieram.


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