Heartstopper Para Sempre fala sobre a dificuldade de encontrar o próprio caminho e a esperança de que ele possa se cruzar com o de quem amamos.
Nick escreve em sua redação de apresentação para a faculdade: “Eu não sei o que estou fazendo da minha vida“, e essa frase parece resumir toda a confusão que o personagem enfrenta no fim dessa história. A constante cobrança do pai durante a infância faz com que ele sinta que, se cometer um erro, as pessoas próximas vão se afastar. Ele precisa se fazer necessário o tempo todo, pois, a partir do momento em que Charlie não “precisar” mais dele, vai abandoná-lo, e ele perderá a única coisa na qual sente que existe um sentido: ser um bom namorado.
Por mais dramático que isso possa parecer para quem já passou da adolescência, a verdade é que, aos 20, 30, 40, 50 anos ou mais, ninguém realmente sabe o que está fazendo e o peso de nossas escolhas nunca fica menor. Em Intermezzo, Sally Rooney escreve: “E se a vida for só uma coleção de experiências essencialmente desconexas? Por que uma coisa tem que decorrer de outra, com algum significado?”. Não seria mais fácil enxergar o mundo dessa forma e apenas viver? Mas Nick Nelson, assim como a maioria das pessoas, é fadado a abraçar o drama e complicar tudo além do necessário, ele espera por um roteiro na vida e tem dificuldade em aceitar a aleatoriedade dela.

Charlie percorreu um longo caminho ao longo de todas as temporadas da série, Heartstopper, para chegar ao capítulo final muito mais confiante e preparado para o mundo. Claro, ainda com todas as suas inseguranças, mas melhor preparado para enfrentá-las no dia a dia. O transtorno alimentar continua presente, mas agora ele tem as ferramentas para conviver com a doença todos os dias, nos bons e nos ruins. Tem amigos que o apoiam em suas escolhas e o ajudam nos momentos difíceis. Aprendeu que não está sozinho e que consegue ter uma vida para além de Nick, algo que o namorado ainda está aprendendo. Mas, assim como em todo relacionamento, o problema passa pela comunicação. Expressar-se é uma dificuldade para os dois e, para além disso, ambos pressupõem o não dito o tempo todo. Aquilo que imaginamos sempre parece pior quando é embebido por nossas inseguranças.
Ser adolescente ou adulto não muda a forma como nos sentimos; a diferença está na bagagem que construímos para lidar com esses sentimentos. Nick e Charlie estão desenvolvendo essa experiência agora, um com o outro, enquanto tentam manter seu relacionamento para além de um romance juvenil. Crescer nunca é fácil, principalmente diante dos traumas que ambos carregam. Cada um tenta suportar o peso do outro em um mar turbulento e acaba se afogando no processo. Apenas quando se afastam percebem que precisam primeiro compreender melhor a si mesmos antes de conseguirem construir um caminho que os leve juntos para o futuro.

O filme da Netflix, Heartstopper Para Sempre, tem lindos momentos que relembram a trajetória dos personagens e como eles chegaram até esse momento, como amadureceram e se tornaram pessoas diferentes. Seu único erro está justamente no fato de ser um filme. Toda a história construída ao longo dos últimos anos não tem tempo suficiente para se encerrar de forma satisfatória, e os personagens coadjuvantes, que acompanhamos durante toda a série, tornam-se cada vez mais secundários, tendo pouquíssimos momentos de desenvolvimento e oferecendo aos fãs apenas pequenas migalhas.
Aqueles que assistirem esperando ver mais de Tao, Elle ou Isaac provavelmente sairão decepcionados. Felizmente, Elle ainda ganha um excelente momento ao confrontar Charlie, mostrando a ele que seu drama amoroso, que naquele instante parece o fim do mundo, na verdade não é. Existem pessoas lutando por suas vidas e por sua liberdade lá fora, e aquilo que parece tão grande naquele momento é pequeno diante da escala do mundo. Charlie não estava errado em seus sentimentos, mas a presença da amiga é essencial para que ele compreenda a dimensão das coisas e perceba que pode superar tudo o que está enfrentando. Essa cena evidencia o quanto o filme perde ao negligenciar esses personagens, afinal, foram eles que também ajudaram a construir seus protagonistas.
Heartstopper foi uma série que marcou a vida de muitas pessoas e se tornou um marco nas histórias LGBTs. Mostrar o amor entre Nick e Charlie ainda tão jovens, seu crescimento, suas aspirações, o medo do futuro e a possibilidade de que ele ainda possa ser bom, apesar de todas as dificuldades, é um dos grandes méritos da obra. Ainda é possível encontrar um caminho que leve a uma vida melhor. Justamente por ter sido tão importante, essa história merecia um final que fosse digno para todos os seus personagens, e não apenas para seus protagonistas. Ainda assim, mesmo com esse deslize, rever esses personagens em Heartstopper Para Sempre, ainda que em poucas cenas, e ter um vislumbre de seus futuros continua sendo capaz de fazer qualquer um sorrir.

Mais um jornalista de cultura pop e otaku nas horas vagas.