A chegada de A Odisseia, de Christopher Nolan, reacendeu uma discussão recorrente sobre adaptações de clássicos: até que ponto uma adaptação precisa ser fiel ao texto “original”?
Antes de respondermos a essa pergunta, precisamos entender que A Odisseia, tal como a conhecemos hoje, é fruto de uma longa jornada. A história surge como uma tradição oral, cantada por gerações de aedos (os bardos da época, sabe?), acumulando mudanças ao longo do caminho até chegar em Homero. Ainda assim, vários autores posteriores a revisitaram e a reinterpretaram. Por isso, é tão complexo falar em uma versão “original” da obra.
Por conta da fama do Christopher Nolan ser voltado ao realismo, a notícia de que ele traria sua visão desse épico para os cinemas resultou em diversos questionamentos. Nolan traria todos os elementos fantasiosos da história? Como seriam os deuses, os monstros, as criaturas? Elementos essenciais para A Odisseia existir como A Odisseia. Então, quando foi divulgado o primeiro trailer com a presença do ciclope, pudemos respirar aliviados: ok, terá um “quê” de fantasia. Porém, foi só um pouquinho mesmo.
Vou esmiuçar como eu enxerguei o filme comparando-o com o que eu interpreto do poema de Homero que, para mim, é um dos maiores tesouros da humanidade. Porém, convém ser suficientemente justa aqui para não confundir gosto e expectativa com interpretação, análise e crítica. Eu entendo que as escolhas do diretor permeiam a história com as lentes da sociedade nos dias de hoje, assim como as escolhas de Homero se baseiam na sociedade da sua época. Cada versão é fruto do tempo de quem a criou. Logo, não há como dizer que as escolhas de Nolan “deveriam” ser essas ou aquelas.

Partindo desse pressuposto, ao sair da sala de cinema fiquei com a sensação de que não havia assistido a uma adaptação e, sim, a uma releitura. As escolhas de cortes de ilhas e personagens, assim como a fusão de alguns deles, eu interpreto como uma adaptação perfeitamente compreensível. Afinal, são diversas passagens, aventuras e personagens, e seria humanamente impossível colocar tudo de cabo a rabo nas telas de cinema. Mas, ao sair da camada mais superficial de uma narrativa aventuresca e adentrar no que caracteriza A Odisseia como uma das maiores histórias já narradas, é possível dizer que Nolan fez, na verdade, uma releitura do poema. Usou elementos, nomes, ambientação e colocou um novo olhar, uma nova perspectiva e, até certo ponto, um novo herói. O Odisseu de Nolan não é, de fato, o mesmo de Homero.
Para mim, uma boa forma de compreender essa diferença é observar a jornada de Odisseu através de quatro eixos: o retorno para casa (nostos), a hospitalidade (xenia), a astúcia (métis) e os perigos da desmedida (hybris). O Odisseu de Homero se caracteriza, sobretudo, pela sua inteligência astuta (métis) e é ela quem, de fato, o diferencia dos demais heróis. Se Aquiles representa, grosso modo, a força física e o heroísmo tradicional, Odisseu é “o homem dos muitos ardis”. Sua principal arma não é a espada, mas a inteligência. E isso aparece já no primeiro verso do poema:
“Fala-me, Musa, do homem de muitas astúcias, que muito vagueou depois de ter destruído a cidadela sagrada de Tróia” (HOMERO, Odisseia, I.1-10, tradução de Frederico Lourenço).
O que alguns nomeiam como “a piada do Ninguém”, na passagem pela ilha do Ciclope Polifemo, na verdade representa algo muito maior. O ciclope desrespeita a regra social da hospitalidade (associada a Zeus) e devora os companheiros de Odisseu. Este, por sua vez, diz que seu nome é “Ninguém” para enganar Polifemo. Um exemplo do desrespeito à xenia e do uso da métis. Além disso, ao sair da caverna e se livrar do Ciclope, Odisseu não se contenta em apenas ir embora, ele precisa se vangloriar de sua astúcia, de sua sagacidade e grita ao ciclope o seu verdadeiro nome. E esse orgulho desmedido (hybris) vai custar caro não apenas a ele, como, também, aos seus homens. Pois, a partir daí é só ladeira abaixo. Posêidon irá vingar seu filho e levar Odisseu e sua tripulação à desgraça total.

Bom, o herói terá que passar por diversos lugares e encontrar algumas pessoas. Em cada passo da sua jornada haverá um erro, uma lição, uma subida de degrau em busca do aprendizado (convenhamos, da pior forma possível, né?). Os Lotófagos podem representar o esquecimento, já que quem prova o fruto (não a flor, ok?) de lótus deixa de desejar o retorno, quer viver apenas o agora, sem se ater ao passado nem ao futuro. Calipso pode representar a tentação da imortalidade, oferecendo ao herói uma eternidade sem sofrimento. O encontro com Aquiles, no Hades, pode significar o que a glória representa para quem já está morto e, ao meu ver, faz Odisseu refletir sobre o quanto quer voltar para sua família. Algo que, lá na frente, com Calipso, fará diferença no momento em que ela lhe oferecer a imortalidade. Enfim, são inúmeras aventuras, cada uma com sua particularidade e possibilidades de interpretação.
Odisseu, para além do famoso ardil do Cavalo de Tróia, vai resolvendo suas situações e seus problemas usando sua métis. Essa é tradicionalmente a sua essência. O que ele não pode (ou precisa) resolver na força bruta, o fará usando a inteligência e a sua astúcia. O episódio do “Ninguém” talvez seja o exemplo mais emblemático disso, justamente porque o herói vence um adversário fisicamente superior através da linguagem e do engano. Da mesma forma, com a feiticeira Circe, ele combina ajuda divina, negociação e firmeza. Sua principal arma continua sendo a inteligência e a astúcia.
Agora falando sobre o filme, Nolan traz uma visão mais contemporânea da história. O que, de forma alguma, é algo negativo. O que fez e faz esse poema perdurar por tantos séculos é justamente essa possibilidade de reimaginar, reorganizar, juntar uma coisa aqui e outra ali. Porém, a questão é: até que ponto dá para mexer na estrutura de uma obra sem perder aquilo que reconhecemos como sua identidade? Se a base do Odisseu ser o herói que conhecemos é justamente essa tensão entre sua astúcia (métis) e sua tendência à desmedida (hybris), se tirarmos isso, o que sobra? Talvez um herói de guerra marcado pela perda, pelo arrependimento, pela dor, alguém que precisou fazer escolhas difíceis e questionáveis, porém dentro do que consideramos como “humanas” (com muitas aspas aqui). Ou seja, um protagonista de um milhão de filmes.

Como, na adaptação de Nolan, o estratagema do “Ninguém” é removido e o confronto com Circe, por exemplo, é resolvido por intimidação física e chantagem, a métis deixa de ocupar uma posição tão central na caracterização do personagem. Nolan acabou construindo uma nova versão do arquétipo de Odisseu: um veterano de guerra, mais duro, marcado pelo arrependimento, talvez com o famigerado “estresse pós-traumático” e fazendo uso da métis principalmente para sobrevivência.
Outro ponto, mas esse sinceramente nem vou me aprofundar porque sei que já está maçante de tanta gente falando, é o fato dele ter descaracterizado as personagens femininas da história. Sim, um crime colocar a Penélope para ficar gritando e chorando quase que o tempo todo, tirando seu peso como a esposa que é tão astuciosa quanto o marido e, também, uma Helena sem a menor presença ou autoridade. Ou, pior, reduzir a Circe de uma baita feiticeira dona de si, toda toda, a uma bruxa de cabana amedrontada diante dos homens. Indefensável. E confesso que o “a Idade do Bronze está acabando” doeu tanto nos meus ouvidos quanto quando ouvi um “o que eu não faço pelo meu país?” na série “Tróia: A Queda de uma Cidade”, da Netflix.
Além disso, na Odisseia de Nolan, não há a representação antropomórfica dos deuses. O diretor opta por representá-los como forças da natureza ou de forma mais figurativa, simbólica, psicológica. Engana-se quem pensa que ele inventou isso, conforme já vi uns comentários por aí… Já na Antiguidade, havia quem desse esse tipo de interpretação para os textos de Homero. Então, pelo menos aqui, o Nolan não inventou a roda, meu povo.

Sinceramente, uma das minhas paixões é a mitologia grega, especialmente clássicos como A Ilíada e A Odisseia. Por isso, torço para que mais adaptações e releituras com esse nível de produção sejam feitas sobre outros épicos maravilhosos como a Eneida, de Virgílio; a Oresteia, de Ésquilo; as histórias de Jasão e os Argonautas; os trabalhos de Héracles, e tantos outros.
Porém, ao assistir ao filme, tentei ao máximo deixar minhas expectativas baixas para a questão mitológica e curtir o evento cinematográfico. Sim, A Odisseia de Nolan é um EVENTO. Como espectadora, posso dizer que achei impecáveis os aspectos técnicos. É um filme de quase três horas e eu não senti esse peso em momento algum. Fiquei completamente envolvida, aguardando as próximas cenas, absolutamente imersa naquilo ali. No geral, Christopher Nolan nos entregou um filmaço.
Eu entendo que o diretor quis trazer a epopeia para os nossos tempos. Isso, por si só, não é um problema. Questões como trauma, identidade, saúde mental, abuso da força e do poder são temas pertinentes e permitem uma versão contemporânea do poema. A Odisseia é uma obra complexa, cheia de possíveis significados e essa releitura contemporânea, mesmo que eu não concorde com algumas escolhas, tem seu valor e foi realmente prazerosa de assistir no cinema. É a minha “adaptação/releitura” preferida? De forma alguma. Mas que é um daqueles filmes que ficarão pra história do cinema, isso com certeza.

Apaixonada por arte, música, literatura e filosofia. Adora a Disney, Harry Potter e Sherlock, além de ser viciada em memes. Ri de tudo, é meio perdida nas ideias, viajante do tempo nas horas vagas, só anda com fones nos ouvidos e ama tudo que é fofinho, inclusive o editor-chefe desse site.