Em meio à guerra, Em memória conta uma história de amor, mas sem esconder todos os horrores que aconteceram naquele período e como aqueles que sobreviveram ainda tinham muito a perder.
Entre 1914 e 1918 aconteceu a Primeira Guerra Mundial, muitas vezes esquecida diante das atrocidades da Segunda Guerra. Estima-se que entre 9 e 11 milhões de soldados tenham morrido e, entre esses, cerca de 885 mil a 1 milhão tenham sido britânicos. Em meio aos jovens que se alistaram para o combate, nos são apresentados Gaunt e Ellwood, os personagens principais de Em memória, o romance de estreia de Alice Winn. No fim da adolescência, após terem estudado juntos durante a maior parte de suas vidas e estando apaixonados um pelo outro, mesmo incapazes de confessarem seus sentimentos, eles se veem tragados por uma das maiores tragédias da humanidade.
Gaunt é um jovem fechado, confuso e carregado de culpa por sua sexualidade, um reflexo de como a homossexualidade era tratada na época. Considerada ilegal, ela era punível com trabalhos forçados ou até dois anos de prisão. Coberto pela raiva e incapaz de falar sobre seus sentimentos, seu amor por Ellwood muitas vezes o machuca pela intensidade e pela necessidade que sente do então amigo. O que ele não compreende é que a dor que sente não é culpa sua, mas sim das imposições da época. Mesmo sem idade para se alistar, é obrigado pela mãe, de família alemã, a ingressar na guerra, sendo essa a única forma de demonstrar que é um “inglês de verdade”.
Ellwood é um bon vivant, poeta e sentimental. Ele aproveita seus privilégios, mesmo que não os compreenda tão bem, para viver a vida como deseja. Sem medo de demonstrar sua sexualidade, vive diversos romances durante os estudos, mas é em Gaunt que encontra seu refúgio. Através da poesia, tenta demonstrar seus sentimentos ao amigo, mas ambos falham em sua comunicação e interpretam os gestos um do outro de maneira equivocada. O que sente por Gaunt é tão forte que acaba sendo atraído para a guerra em sua busca.
Alice Winn consegue demonstrar muito bem, no seu livro Em Memória, como a inocência foi destruída durante esse período da história. Essas “crianças” foram atraídas para a guerra através da propaganda; todas as mortes, por mais cruéis e banais que fossem, eram vendidas como algo glorioso, em prol de um bem maior. O contraste entre seus protagonistas ajuda a reforçar como tudo foi construído para atrair essas pessoas para a morte. Gaunt é essencialmente um pacifista, ele não acredita na guerra. Ellwood, assim como seus demais colegas, parece enxergar tudo como uma grande brincadeira; existe uma empolgação para se alistar, para receber as glórias que um soldado tanto almeja. Essa inocência morre diante do campo de batalha, e Winn não economiza em suas descrições, tornando todas as passagens o mais cruéis possível.

A guerra tirou muito mais do que vidas; seus sobreviventes tiveram que lidar com as consequências deixadas por ela. Os que voltaram dos campos de batalha nunca mais foram os mesmos; deles foram arrancados pedaços do que constituía seu próprio eu. Mesmo que, no campo de batalha, tenham encontrado companheirismo e amizade entre aqueles ao seu lado, o preço pago foi alto demais. Winn, através de seus coadjuvantes, constrói uma sociedade muito mais receptiva naquele ambiente, em que as mesmas leis não se aplicam e em que seus protagonistas conseguem ser mais livres em meio a toda essa opressão. Durante esse período surgiu um movimento conhecido como Ordem da Pluma Branca, mulheres entregavam uma pluma branca para homens sem uniformes que aparentavam ter idade para se alistar, uma forma de constrangimento, se utilizando do machismo daquela época para obrigar esses homens a irem à guerra e entregarem suas vidas ao país. É interessante como essa condenação à morte, por um ato simples, acabou por libertar os protagonistas que se aproveitaram da iminência da morte para viverem.
Gaunt é preso em seus sentimentos. Seu compatriota alemão Johann Wolfgang von Goethe escreveu, em Os Sofrimentos do Jovem Werther, sobre esse amor doentio e inalcançável, que abala o corpo e a alma de quem o sente. Apesar de não conseguirem alcançar seu desejo por motivos diferentes, Gaunt e Werther sofrem com a incapacidade de “respirar” estando afastados de quem amam. Mas, diferente de Werther, Gaunt consegue encontrar a liberdade de sentir, mesmo perdendo todos à sua volta. Ellwood, por sua vez, aos poucos vai perdendo o amor por sua terra, por seu povo, pelos que o amam e por si mesmo. Quando encontra a possibilidade de enfim viver o amor que tanto desejava em suas poesias, acaba vendo tudo ser tirado dele, perdendo a capacidade de enxergar a beleza do mundo.
Alice Winn constrói com Em memória um romance em meio à guerra sem medo de mostrar seus horrores, a propaganda, as diferenças sociais e como o machismo impactou cada escolha daquela época, levando pessoas a encararem a morte por aqueles que amavam. Apesar de tudo o que faz muito bem, a autora falha ao não aprofundar seus coadjuvantes, que muitas vezes se confundem em meio a sobrenomes e pequenas participações. Suas passagens e descrições curtas acabam deixando a sensação de algo inacabado, o que prejudica a imersão nos sentimentos descritos em suas páginas. Ainda assim, mesmo com suas falhas, Winn entrega um primeiro romance que chama atenção para seu nome e desperta ansiedade sobre o que ainda está por vir em sua carreira.
Em Memória é uma publicação da Editora Astral Cultural.

Mais um jornalista de cultura pop e otaku nas horas vagas.