A Maravilhosa Árvore Encantada, adaptação estrelada por Andrew Garfield, dialoga bem com dores atuais.
Depois de ter tido um sucesso nos anos 80 seja com clássicos como A História Sem Fim, Os Goonies ou Labirinto ou com clássicos de nicho tais como A Lenda ou Willow, a fantasia reviveu nos anos 2000 sob a liderança das franquias Harry Potter e Senhor dos Anéis. Antes um gênero marcado pela inocência juvenil em contraste com a opressão de um mundo sombrio e vilões gigantescos, tais como o diabão imortalizado pelo agora saudoso Tim Curry, houve um processo de moderação de modo a trazer um risco mínimo para manter engajamento, porém mais distante do gênero terror do que vinte anos anteriormente.
Com a ascensão dos romances juvenis, dos mundos distópicos e dos super-heróis, a fantasia voltou a ser um gênero de nicho. Hoje, é mais fácil ver relançamentos das velhas sagas trazendo públicos vastos aos cinemas do que novas produções tendo seus cartazes inseridos ao lado das salas de cinema. Tendo o, agora duas vezes indicado ao Oscar, Andrew Garfield e um elenco de coadjuvantes talentosos, A Maravilhosa Árvore Encantada vem para trazer uma nova vida ao gênero no cinema.
Na história, baseada na série de livros de Enid Blyton (lançados há mais de oitenta anos!), uma família formada por Tim (Garfield), um pai com dotes artísticos que cuida dos três filhos em casa, e Polly (Claire Foy), uma inventora a qual se desligou de seu emprego por questões éticas, decide recomeçar sua vida no interior. Revoltados pela falta de eletricidade e internet, os filhos precisam aprender a lidar com o tédio enquanto os pais buscam uma forma de sustentar-se. É aí que a filha mais nova, Fran (Billie Gadsdon) descobre a Árvore Faraway (do título original), onde diversas fadas e seres inusitados vivem.

Longe das abordagens pautadas pela intenção, o diretor Ben Gregor demonstra capricho em composições desde os primeiros minutos de A Maravilhosa Árvore Encantada, usando o frame de 2.39:1 para inserir o máximo de elementos possíveis horizontalmente. Cada cenário do design de produção parece ter um grau de profundidade raro nas produções atuais, tão acostumadas com as lentes longas e primeiros planos. Mesmo que o mundo humano já pareça vasto, isso não tira o fator surpresa da descoberta da fantasia. Há uma combinação eficiente de figurinos, cenários artesanais e doses apropriadas de efeitos visuais. Mesmo após décadas de mundos fantásticos sendo introduzidos, Gregor consegue, ao trazer sempre o maior volume de elementos seja cenográficos ou a presença dos atores.
Atores estes que vendem a história como necessário. Seja a inocência e entusiasmo de Garfield, o estoicismo e motivação de Foy, a transição de ceticismo rumo ao deslumbramento juvenil dos atores mirins ou o lúdico caricato trazido por nomes tais como Nicola Coughlan, Nonso Anozie e Rebecca Ferguson, todos tratam seus papéis com seriedade. Seriedade a qual, embora não se reflita em monstros gigantescos ou seres sombrios, é abraçada pelo roteiro na forma de tratar seus temas. Se, em Toy Story 5, o uso de telas antecipando a adultização foi pertinente, aqui há algo em comum com o filme da Pixar no que diz respeito ao uso exagerado de tecnologias suprimindo a criatividade.

O diferencial é em como a jornada das crianças rumo às próprias brincadeiras refletem à luta dos pais em fugir do contexto corporativo atual, o qual leva à competitividade constante para maiores salários em detrimento de qualidade de vida. As interações sinceras e calorosas da família são tão importantes quanto descobertas de dimensões pitorescas. Isso traz autenticidade ao arco especialmente da irmã mais velha, a qual durante a adolescência, como esperado, tem maior dificuldade em se adaptar a uma existência abaixo do analógico.
A Maravilhosa Árvore Encantada, no mais, é uma fantasia mais que apropriada para uma geração a qual busca por conforto acima de canibalismo e autofagia financeira. Sem a necessidade de estender-se num universo de exposição, é um filme que te convida a duas horas de encantamento com seriedade suficiente para discutir temáticas pertinentes. Vale mais a assistida do que o relançamento de Harry Potter.
Com distribuição da Diamond Films, a maior distribuidora independente da América Latina, A Maravilhosa Árvore Encantada estreia nacionalmente em 10 de setembro.

Mesmo trabalhando na área de educação, estuda e escreve sobre cinema desde os treze anos. Mesmo vendo muita coisa fora de Hollywood, não é hater de blockbusters (nunca deixa de ver um Velozes e Furiosos quando lança). Ama também ler e jogar videogame. Apenas evita comédias românticas e livros de auto ajuda.