Em Procura-se um namorado, Alexis Hall explora a comédia romântica com personagens queer e mostra a importância de minorias protagonizarem todos os tipos de histórias.
Luc e Oliver não poderiam ser mais diferentes. O primeiro é filho de ex-astros do rock; o pai o abandonou aos 3 anos. Ele cresceu sendo perseguido por paparazzis e tendo sua vida e seus erros expostos. Cresceu traumatizado por isso e por um ex-namorado que vendeu sua história para um tabloide. Tem um emprego que odeia e, por causa dele, se vê obrigado a tentar consertar sua imagem pública. Essa missão passa pela necessidade de começar um relacionamento e é assim que conhece Oliver. Oliver é um advogado em ascensão, cresceu tendo a vida mais correta possível, preocupa-se com sua imagem, frequenta academia, é vegetariano, vem de uma família respeitável e ama seu trabalho. Juntos, eles decidem fingir um relacionamento para benefício mútuo.
Quando nos deparamos com a sinopse do livro de Alexis Hall, Procura-se um Namorado, o primeiro pensamento que pode vir à cabeça é que se trata de um clichê de comédia romântica e isso, de forma alguma, está errado. O que vemos aqui é um conjunto de convenções do gênero utilizadas ao longo de muitos anos, porém em um contexto LGBTQIAPN+. Veja bem: já acompanhamos diversas mocinhas e mocinhos vivendo os mesmos dilemas desses personagens, porém, quando temos uma história queer, as coisas ficam um pouco diferentes. Os dilemas mudam? Não necessariamente. Mas, ao longo dos séculos, esses clichês foram negados às minorias. Para elas, apenas o papel de coadjuvante era reservado, o melhor amigo, o alívio cômico. Então, compreender todo esse contexto faz total diferença. Para esse público, as histórias que existem por aí ainda são insuficientes; o gênero ainda não está desgastado para aqueles que foram privados dele.
Não existe mistério em Procura-se um Namorado. Desde os primeiros momentos, fica claro tudo o que vai acontecer, mas isso não torna a história menos prazerosa ou seus personagens menos interessantes. A cultura de paparazzis e tabloides é um recorte britânico muito forte; a relação deles com esse tipo de mídia é diferente da de outras regiões do mundo. Talvez o maior exemplo disso tenha sido a Princesa Diana, cuja repercussão foi mundial. Então, o que Luc vive é algo que talvez não acontecesse da mesma forma em outros países. Tudo o que ele faz é tirado de contexto e utilizado para vender notícias da pior espécie. Isso faz com que, ao longo dos anos, ele crie uma barreira que o impede de confiar inteiramente nas pessoas e faz dele, sem palavra melhor, um grande babaca, desde a forma como trata seus amigos, seus colegas de trabalho até o próprio Oliver quando o conhece. A adição do retorno do pai ausente apenas acrescenta à construção do personagem e expõe seus traumas para que o leitor possa ficar ao seu lado e torcer por ele.

A questão com Oliver é mais universal, principalmente sendo um homem gay. Ele busca a perfeição em todos os âmbitos de sua vida, talvez como uma forma de compensar o mundo por causa de sua sexualidade, mesmo que de maneira inconsciente. Cada escolha dele é feita sob muita pressão, sempre ponderando e pensando à exaustão, vivendo constantemente sob o olhar dos pais. Então, Luc funciona para ele como um sopro de liberdade em meio a todo esse controle, por isso está tão disposto a passar por tudo isso e se expor a esse relacionamento falso. A união de duas pessoas tão diferentes é a combinação perfeita para tornar impossível largar o livro. Sabemos tudo o que vai acontecer, mas, mesmo assim, é impossível parar.
O relacionamento falso entre ambos, apesar de ser utilizado para dar início à relação, também serve como forma de crítica. Luc não é visto como o tipo “certo” de gay, ele não tem medo de se expor, e isso causa incômodo em determinados grupos de pessoas que querem que ele seja mais comportado, que não chame atenção, que “seja gay, mas nem tanto”. Os dois precisam performar para a mídia algo que não são, da mesma forma que pessoas, no dia a dia, precisam manter algum nível de performance por uma questão de aceitação e até mesmo de segurança. Então, apesar da leveza do livro, ele possui pequenas pitadas de contexto político e aborda temas complexos, como depressão e distúrbios alimentares.
Não só a questão dos tabloides britânicos é algo único aqui, mas também o humor, que é muito característico de lá, não apenas no que acontece entre os dois, mas também com os personagens ao redor, que não só brincam com o clichê aristocrático do país, como também abraçam o absurdo, muitas vezes lembrando a escrita de Douglas Adams. Procura-se um Namorado é carregado de bom humor, e isso nos lembra de não esperar aqui um excesso de verossimilhança com a vida real; decisões e atitudes questionáveis estão liberadas dentro do contexto criado para esse mundo.
Procura-se um Namorado não tem a menor intenção de reinventar a literatura. Ele é o que é, e funciona muito bem dessa forma. Ainda bem que faz isso e segue ampliando o espaço de livros protagonizados por minorias, com suas semelhanças em relação ao que já existe, mas também com suas individualidades, mostrando para o mundo que não só as pessoas são plurais, como também as histórias que elas têm para contar. E elas ainda têm muito a dizer antes de serem tratadas como apenas mais um clichê.

Mais um jornalista de cultura pop e otaku nas horas vagas.