Em A Última Batalha, último livro de As Crônicas de Nárnia, C. S. Lewis apresenta uma das imagens mais simbólicas de toda a série.
O macaco Manhoso encontra uma pele de leão e convence o burro Confuso a vesti-la para que todos acreditem estar diante de Aslam, o Grande Leão. Manhoso passa então a falar em nome daquele falso Aslam e usa sua imagem para conquistar poder em Nárnia. Confuso não é exatamente o autor da fraude: é inseguro, facilmente manipulado e, mesmo percebendo em alguns momentos que há algo errado, permite que Manhoso pense por ele. A mentira, portanto, não está apenas em fazer um burro parecer um leão, mas em fazer com que as pessoas aceitem a aparência como verdade e passem a obedecê-la.
É justamente essa imagem que pode servir como uma lente para pensar o messianismo político presente em parte da extrema-direita brasileira atual. Para uma parcela de seus apoiadores, há políticos que deixaram de ser apenas políticos conservadores e passaram a ocupar um lugar simbólico muito maior: o de defensores da pátria, da família, da liberdade e dos valores cristãos diante de tudo aquilo que identificam como uma ameaça.
Manhoso não precisa convencer Nárnia de que ele próprio é Aslam. Basta colocar sobre outra criatura aquilo que Aslam representa. A pele do leão faz todo o trabalho. Na política, algo semelhante pode acontecer quando uma liderança passa a se apresentar não apenas como representante de um projeto político, mas como a própria encarnação de valores como Deus, pátria, família, cristianismo e salvação nacional. A pessoa deixa de ser avaliada apenas por suas ideias, decisões e ações e passa a ser protegida pelo símbolo que carrega. Criticar o político começa, então, a parecer uma agressão à própria fé ou aos valores que ele afirma representar. E quando isso acontece, a política deixa de ser apenas política e começa a assumir características de devoção.

Por isso, a história de A Última Batalha oferece uma reflexão tão importante. O verdadeiro perigo não é apenas acreditar em um político ruim; é transformar um político em algo que nenhum político deveria ser: um salvador. Nenhum governante, candidato, partido ou família política pode ocupar o lugar que pertence a Deus. Ainda assim, quando uma liderança é apresentada como aquela que irá “salvar” a nação, restaurar a moral, proteger a fé e derrotar todos aqueles que são definidos como inimigos, a fronteira entre convicção religiosa e lealdade política pode começar a desaparecer. E é exatamente aí que a imagem do falso Aslam se torna assustadora: ele não pede que as pessoas abandonem Aslam. Ele pede que elas reconheçam sua própria autoridade como se ela viesse de Aslam.
Por isso, talvez a pergunta mais importante deixada por Lewis não seja simplesmente “quem é o verdadeiro Aslam?”, mas como podemos reconhecê-lo? No cristianismo, a resposta não deveria estar apenas na aparência, no discurso ou na quantidade de vezes que alguém pronuncia o nome de Deus. Jesus fala sobre reconhecer as pessoas pelos seus frutos. Isso significa que o cristão deveria conservar a capacidade de olhar criticamente até mesmo para alguém que compartilha sua fé, seus valores ou sua visão de mundo.

Fé não deveria significar terceirizar a consciência para um líder político. Um cristão pode ser conservador, progressista, de direita, de esquerda ou não se identificar com nenhuma dessas categorias, mas nenhuma dessas posições transforma um ser humano em messias. O perigo começa quando a pele de leão se torna mais importante do que aquilo que existe por baixo dela. E talvez essa seja uma das grandes advertências de C. S. Lewis: quando deixamos de examinar os frutos porque estamos encantados com a aparência do leão, já não estamos apenas escolhendo um líder. Estamos entregando a ele uma parte da nossa própria capacidade de discernir.
A farsa arquitetada por Manhoso e sustentada pela ingenuidade de Confuso mergulhou Nárnia em uma catástrofe terrível, pois, ao espalhar a mentira de que Aslam havia retornado cruel e indiferente, o macaco destruiu a fé dos narnianos e usou essa imagem distorcida para se aliar aos calormanos, permitindo que o reino fosse invadido e explorado. Esse cenário de tirania gerou um clima profundo de divisão e caos, deixando os animais falantes completamente desnorteados entre obedecer por medo ou resistir àquela autoridade tirânica, provando como a astúcia maliciosa de um manipulador consegue devastar uma nação quando encontra terreno fértil na passividade alheia.
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Apaixonada por arte, música, literatura e filosofia. Adora a Disney, Harry Potter e Sherlock, além de ser viciada em memes. Ri de tudo, é meio perdida nas ideias, viajante do tempo nas horas vagas, só anda com fones nos ouvidos e ama tudo que é fofinho, inclusive o editor-chefe desse site.