Força, Nakamura! é uma história sobre inocência, o primeiro amor e como crescemos através de nós mesmos e do outro.
Nakamura, um estudante de 16 anos, tímido e desajeitado, se apaixona por seu colega de classe, Hirose, e passa a fazer de tudo para se aproximar dele. Diferente de muitos outros animes com temática BL (Boy’s Love), Força, Nakamura! não esconde sua sexualidade: o personagem se entende como gay e deixa isso explícito desde os primeiros momentos da história. O conflito de Nakamura não é consigo mesmo, mas com a sua timidez.
Ser LGBT muitas vezes vem acompanhado do “segredo”, do constante medo de ser descoberto e do que isso pode acarretar. A vida é moldada pelo silêncio. Em diversas obras, como o famoso O Segredo de Brokeback Mountain, no cinema, ou O Quarto de Giovanni, na literatura, além de exemplos mais contemporâneos como Mentiras que Contamos e Nadando no Escuro, esse tropo é utilizado. Porém, Força, Nakamura! escolhe subverter algo que é tão comum. O anime transforma esse medo e isolamento do protagonista em algo mais leve, utilizando-os para criar situações de humor e desenvolver os personagens. Não que o medo não esteja ali, mas a sexualidade é uma questão muito bem resolvida para o protagonista.

Nakamura vive muito do seu relacionamento com Hirose dentro de seus próprios pensamentos, onde nada pode dar errado. Vive no constante suspense de saber se o que criou em sua mente pode se tornar real ou não, se esse amor inocente lhe pertence por direito, algo que muitas vezes é negado às pessoas LGBTs, enquanto a heteronormatividade acessa isso com facilidade. Na obra Do Amor, o filósofo Stendhal fala sobre como a mente idealiza a pessoa amada, projetando nela todas as perfeições, o que é justamente o que Nakamura faz com Hirose. Em dado momento, Hirose pergunta a ele: “Qual é o meu charme?”, e a resposta é: “Tudo”, pois Nakamura o enxerga como perfeito.
Nakamura é um jovem tímido, muitas vezes antissocial, mas, como pontua o filósofo Alain de Botton: o primeiro amor não é apenas sobre o outro, mas sobre a urgência de decifrar a si mesmo. Ao longo dos treze episódios do anime, vemos o personagem crescer enquanto está apaixonado por Hirose. Por intermédio desse sentimento e do que está disposto a fazer para alcançá-lo, o vemos superar obstáculos sociais, interagir, criar amizades e se fortalecer como pessoa. Hirose é seu oposto: distraído e sociável, ele funciona como um espelho que faz Nakamura viver o mundo de forma diferente. A história, em uma primeira camada, pode parecer tratar dessa obsessão romântica, mas a realidade é que ela é sobre o crescimento de Nakamura e como ele supera seus limites para se encontrar como pessoa.
Força, Nakamura! é uma comédia romântica em toda a sua glória, sem vergonha de ser quem é e sem se forçar para além dos limites do comum. Syundei cria, em sua obra, uma história charmosa sobre timidez, crescimento e primeiros amores, sobre criar laços e fazer amigos, sobre a dor dos sentimentos não correspondidos e sobre a alegria de se encontrar entre seus pares. O anime, com sua charmosa animação inspirada nos anos 90, apenas amplia e difunde ainda mais o potencial dessa história.

Mais um jornalista de cultura pop e otaku nas horas vagas.