Catalisador da chegada dos animes ao ocidente, Akira, filme de Katsuhiro Otomo, é um clássico imperdível.
Dificilmente teríamos um público tão ardorosamente consumidor de animações japonesas se Akira não tivesse existido. Dirigido por Katsuhiro Otomo baseado em seu mangá, o filme mistura arcos conhecidos envolvendo amizades, gangues e autodescoberta com uma estética cyberpunk a qual se popularizou nos anos 80.
Na história, situada em 2019, a destruição de Tóquio levou a uma nova guerra mundial a qual criou um mundo pós-apocalíptico onde há a aparência de institucionalidade, porém com a dominação de gangues e violência constante. Kaneda, o líder de uma das gangues, é um adolescente cabeça-quente porém bem intencionado, cujo melhor amigo, Tetsuo, colide de moto com um ser envolvido em um experimento científico. Com o amigo sofrendo mutações, adquirindo poderes cada vez maiores e refém de estruturas governamentais, Kaneda se alia a um grupo de dissidentes para salvá-lo.
Assim como diversas obras japonesas, Akira reflete os temores tanto do ataque nuclear causado pelos Estados Unidos ao final da Segunda Guerra Mundial quanto da reconstrução proposta posteriormente, a qual sustentava-se sobre a hegemonia de armas de destruição global. Godzilla e Gen Pés Descalços são outros dois exemplos entre tantos. O que diferencia Akira, além da estética, é uma sensibilidade sempre abraçada pelo cinema.
O arco percorrido por Kaneda e Tetsuo tem a ver com o abandono de estruturas sociais. Tratam-se de garotos órfãos agredidos por quem poderia acolhê-los, os quais tomam a decisão deliberada de alienar-se juntamente a outros jovens em busca de sentimentos de pertencimento. Se Luis Buñuel, 38 anos antes, não teve medo de abordar o tema com todo seu peso, Otomo, tomando liberdades que só a animação poderia prover, cria algumas cenas que podem perturbar os que só querem ver um filme de gangues disputando territórios.
Claro, Akira não decepciona quem busca por entretenimento também. A ação, quando presente, segue os preceitos do cinema asiático ao não deixar a câmera se sobressair ao que ocorre em tela. Assim, o frame de aspecto 1.85:1 (comum em animações japonesas) é preenchido seja com as expressões dos personagens, com seus movimentos e com o dinamismo das corridas de rua.
A paleta de cores teve criação de 50 tonalidades de modo a expressar diferentes camadas em ambientações escuras. A fluidez e expressividade da animação parece não ter envelhecido um dia sequer, e o uso de efeitos computadorizados funciona por surgir em momentos estratégicos. Já a trilha sonora de Shōji Yamashiro parece evitar ao máximo os clichês tecnológicos, usando instrumentos minimalistas e muitos vocais. Quando cenas as quais usam efeitos complexos vêm acompanhadas da música, o impacto é inevitável.
Por mais que haja resquícios de Blade Runner em discussões sobre humanidade em contextos pós-apocalípticos, Otomo desenvolve sua própria abordagem com base seja em discussões clássicas sobre exclusão social ou na técnica do cinema japonês. É uma estilização voltada à sensibilização mais do que à liberação de endorfina, e por isso o final silencioso ainda deve trazer muitas reações de comoção.
Em resumo, Akira, na era das Inteligências Artificiais e do isolamento virtual, é mais valioso do que nunca. Veja na melhor tela e com o melhor som possível.

Sinopse:
Em 2019, três décadas após o governo japonês destruir Tóquio com uma bomba nuclear para encobrir um experimento com crianças paranormais, o motoqueiro cyberpunk Kaneda embarca em uma missão perigosa para salvar seu amigo Tetsuo de uma conspiração governamental de proporções inimagináveis.
Retorno às telonas:
Akira é um anime que dispensa apresentações: lançado no Japão em 1988, o filme chegou ao Brasil em 1991 com distribuição Sato Company, e desde então conquistou toda uma legião de fãs e marcou para sempre a cultura pop, influenciando obras em todo o mundo até os dias atuais. Agora, os fãs e as novas gerações ganham uma nova oportunidade de experienciar o clássico nos cinemas com o relançamento da animação em formato 4K remasterizado a partir de 27 de agosto.

Mesmo trabalhando na área de educação, estuda e escreve sobre cinema desde os treze anos. Mesmo vendo muita coisa fora de Hollywood, não é hater de blockbusters (nunca deixa de ver um Velozes e Furiosos quando lança). Ama também ler e jogar videogame. Apenas evita comédias românticas e livros de auto ajuda.