Entre reinvenção e legado, Absolute Batman entrega uma das versões mais humanas e brutais do herói.
Vamos começar pelo básico aqui: gibi de herói não é complexo, é bagunçado. São muitos anos de cronologia, mortes, ressurreições, retcons e o diabo a quatro. Por exemplo, se você pegar algo do Batman pra ler na orelhada, pode até entender, mas vai ficar com questionamentos do tipo “quem é esse personagem?”, “mas e essa saga que ele mencionou?”, “poxa, preciso ler isso aqui pra pegar legal o contexto”. No fim, você pode ficar com preguiça de ir atrás de tanto material velho ou de pegar aquela história que continua os eventos de 5 sagas atrás. E, sim, isso afasta novos leitores e até mesmo os antigos que, por algum motivo, estão afastados.
É nesse contexto que o Universo Absolute entra com tudo. Imagine pegar um personagem que acabou de completar 87 anos de história e escrever uma saga do zero, sem o peso de anos e anos de cronologia, tendo liberdade criativa pra reinventar o que você quiser. Absolute Batman acertou tanto nessa veia que bateu (e ainda bate) recorde de vendas e, mesmo após 15 edições, segue com fôlego, bem longe de uma fadiga. E detalhe: tudo isso mantendo viva a essência do personagem.
Minha relação com esse personagem é quase pessoal. Não digo pra bater no peito e dizer que “entendo mais de Batman” porque, sinceramente, isso não existe. O Batman que temos hoje não é mais o mesmo da década de 40, não é mais escrito por seus criadores e existe uma magia muito forte nisso, onde outras mentes criativas podem pegar essa base e brincar com elas.

São visões únicas de escritores das mais variadas culturas dando aquele toque com histórias mais detetivescas, outras com mais ação, outras mais psicológicas e cada pedacinho disso vai sendo incorporado em sua psique. O Batman que vemos hoje, ao abrirmos um gibi, tem 87 anos de bagagem e mudanças. O mais incrível disso é que tanto essa versão, que vou chamar aqui de oficial, quanto a versão Absoluta, se beneficiam dessa riqueza histórica.
Ou seja, mesmo esse Absolute Batman não tendo amarra NENHUMA, ele carrega 87 anos de desenvolvimento. É muita coisa. Eu curto demais o personagem, tenho meus favoritos e, claro, algumas versões que não curto muito. Mas, se a pessoa curte uma versão diferente da minha é porque aquele Batman foi importante pra ela naquele momento.
No último Confins do Universo que foi lançado, o tema foi colecionismo e o Samir Naliato falou sobre a questão de ter diversas edições da mesma história e que cada edição carrega consigo uma história única. Isso bateu forte em mim. Acredito que as versões do Batman tenham a ver com isso. Cada Batman foi importante no meu desenvolvimento enquanto fã.
Conheci o personagem com Michael Keaton, assistia com frequência a série animada dos anos 90 e os Super Amigos, logo em seguida vieram os quadrinhos, filmes com Val Kilmer e Clooney. Minha infância foi regada a Batman, das mais diferentes versões. Inclusive a própria série de 66, que meu pai assistia e que dei muita risada quando conheci. Não houve estranheza, parecia ser da natureza do personagem ser multifacetado.
O Absolute Batman apresenta mais uma faceta do personagem. Que agora tem uma mãe viva, não é bilionário e tampouco tem um mordomo. O personagem conseguiu ficar ainda mais humano, ao mesmo tempo que liberou seu potencial mais animalesco. Esse Batman parece ser ainda mais obcecado por sua missão e, mesmo que agora tenha uma mãe para se preocupar, ele não parece muito preocupado com sua própria vida. Porém é nítido que crescer com Martha Wayne ao seu lado também fez bem ao jovem Bruce que, aos trancos e barrancos, cresceu com amigos leais.
Esse é outro ponto central desse novo Batman de Absolute Batman. Bruce não cresceu com privilégios e batalhou o dobro pra conseguir suas habilidades e recursos. Contudo, cresceu com amigos que são velhos conhecidos do público: Oswald Cobblepot, Harvey Dent, Edward Nygma, Selina Kyle e Waylon Jones. Sim, velhos conhecidos do público e que agora fazem parte da história mais íntima de Bruce Wayne. Será que eles vão se tornar vilões? As regras aqui são diferentes. Nem tudo é o que parece.
O próprio Alfred, que na cronologia oficial tinha um histórico no serviço secreto britânico antes de se tornar mordomo dos Wayne, se tornou um agente na ativa que vê em Batman um potencial gigantesco de alguém que pode realmente fazer a diferença. A figura, antes paterna, agora se torna uma referência de experiência no campo de batalha. A dinâmica dos dois continua ótima, mesmo com essa diferença.
Quanto aos vilões, tivemos dois grandes adversários mostrados até então: o Máscara Negra e seus seguidores, que muito lembram a Gangue Mutante de O Cavaleiro das Trevas, e o Bane. E aqui gostaria de destrinchar um pouco mais. Bane nos cinemas nunca foi retratado do jeito certo. Em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, a revelação de que Bane era novamente um “pau mandado” tirou um pouco da força do personagem, principalmente pelo seu destino sem graça. Mas, Scott Snyder, roteirista de Absolute Batman, mostrou que dá sim pra fazer um Bane “capanga” ser extremamente ameaçador.

Não existe um grande mistério a respeito disso na trama, igual ao filme Batman & Robin onde Bane é apresentado como um capanga. Essa revelação é feita naturalmente dentro da história e não apresentada como um grande plot twist. Mas, em momento algum o peso do personagem diminui ou o sentimos menos importante. Pelo contrário, vemos o quanto ele é perigoso agora que sabemos sua motivação. Algo que, por sinal, faltou ao personagem original criado nos anos 90.
Posso dizer, sem medo do linchamento, que esse Bane Absoluto grotesco é um adversário melhor que o original. Ele não só quebra o corpo desse Bruce Wayne, mas o seu espírito. E, dadas as circunstâncias, quebra do melhor jeito possível. Obs para fazer justiça à cronologia original: o Bane escrito por Tom King, em “Cidade do Bane”, merece aplausos e um belo chute no saco de tão filho da puta e maquiavélico que é.
Bom, pra finalizar, pois acho que já falei demais aqui, Absolute Batman pode assustar à primeira vista, como me assustou, mas se você der uma chance pra esse quadrinho, pode ter certeza de que será apresentado a uma das versões mais incríveis do Cavaleiro das Trevas. Acho difícil você não gostar, mas caso aconteça, só posso lamentar e esperar ansioso pelo próximo número.

Publicitário e jornalista que é apaixonado por cultura pop, coleciona tudo que vê pela frente, adora uma piada ruim e ama a revisora desse site.