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Devoradores de Estrelas | Comédia espacial que subverte expectativa

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Devoradores de Estrelas transforma o primeiro contato alienígena em uma história de cooperação e esperança.


A Guerra dos Mundos, romance de ficção científica publicado por H.G. Wells em 1898, narra a invasão da Terra por marcianos dotados de inteligência e armas poderosas. Uma das principais interpretações da obra a define como uma crítica ao colonialismo, afinal, os marcianos espelham os colonizadores humanos: seres tecnologicamente superiores que, incapazes de comunicação, não buscam qualquer cooperação e destroem seus inimigos. Sobre essa dimensão política, o historiador Márcio Guimarães, em seu estudo sobre o imaginário na ficção científica, observa:

Como exemplo, capturamos a ideia do escritor inglês H.G. Wells, que já nos dava uma colher de chá do próprio veneno imperial britânico: em A Guerra dos Mundos, de 1897, era a vez de sermos massacrados, sem chance de defesa, uma clara alusão às atrocidades impostas sobre outras regiões do planeta pela Coroa Inglesa. John Rieder, crítico ficcional enfatiza esta questão dizendo que a colonização e a ideologia são componentes cruciais da ficção-científica, inclusive, com referências históricas na propulsão ideológica de uma novela”.


Partindo desse exemplo, podemos compreender a ficção-científica, em especial as histórias de invasões intergaláticas, como alegorias para a nossa realidade, ora como medo ora como desejo. Nesse quesito, onde Devoradores de Estrelas se encaixa?

O filme lançado em 19 de abril de 2026 nos cinemas brasileiros conta a trajetória do Grace (Ryan Gosling), um cientista que trocou a carreira acadêmica pelas salas de aula, mas acaba convocado para uma missão desesperada: descobrir a origem de um organismo que consome a energia do Sol e ameaça o sistema solar. Em sua jornada rumo ao único planeta imune à praga, ele encontra Rocky, um alienígena que compartilha do mesmo objetivo de sobrevivência.



“Devoradores de Estrelas” e “A Guerra dos Mundos” apresentam visões distintas sobre o primeiro contato. Se na obra de Wells, os aliens são inimigos mortais, no filme de 2026, existe uma relação de cooperação que supera a barreira da linguagem e cria uma amizade genuína. Essa perspectiva pouco habitual é o grande trunfo de Devoradores de Estrelas. Em um cenário global marcado por conflitos crescentes e escassez de recursos, presenciar um encontro com o ‘desconhecido’ que não resulte em violência é, no mínimo, inspirador.

O humor do filme compreende bem essa posição. Com piadas leves e acessíveis, as primeiras interações com Rocky subvertem a expectativa de conflito por meio da comédia. Mesmo nos momentos de maior tensão, o roteiro mantém um espírito resiliente, do tipo “vamos rir das desgraças”. Ryan Gosling entrega uma atuação engraçada e natural, lembrando seu papel em O Dublê (2024). Rocky acaba se tornado um xodó, sem que o personagem fique infantilizado.

Entretanto,  Devoradores de Estrelas falha em atingir a carga dramática a que se propõe. Embora o roteiro reitere a ameaça global, as cenas na Terra não conseguem criar no espectador a empatia pelo destino do planeta. Grace interage na maior parte do tempo com Eva Stratt, cientista líder do projeto, apesar da ótima atuação de Sandra Hüller, falta densidade emocional a essa relação.



No fim, a Terra acaba soando como um cenário abstrato, desprovido da importância afetiva necessária para sustentar o peso da história. Na última meia hora das duas horas e meia do longa a edição reforça essa falta de dramaticidade. São várias cenas em que a história caminha para um desfecho, mas a cena seguinte aparece e a história continua, parecendo que existem vários finais na histórias, seguidos de vários epílogos, diluindo a urgência da narrativa.

Segunda adaptação de Andy Weir para o cinema, Devoradores de Estrelas compartilha o DNA de Perdido em Marte (2015). O autor consolidou-se como um favorito de Hollywood, e este novo filme guarda semelhanças evidentes com o antecessor, um indicativo de que agradará ao mesmo público. As maiores semelhanças estão no rigor científico mesclado com humor, especialmente nas cenas em que o protagonista recorre a monólogos, pensamentos internos ou registros em diários para processar seus desafios.      

O humor de Devoradores de Estrelas funciona bem pois subverte o esperado nas histórias de contato alienígenas e conta com Ryan Gosling muito confortável no papel. Contudo, o longa peca ao tentar construir tensão, a falta de peso dramático dos personagens, somada a uma edição que perde o ritmo no ato final e compromete o senso de urgência.  Apesar disso, é um filme que dá um quentinho no coração e permite-nos imaginar um futuro mais positivo e colaborativo.

Devoradores de Estrelas – Trailer


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