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Cinco Tipos de Medo | Quando o visual não é o suficiente

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Cinco Tipos de Medo, produção brasileira estrelada por Bella Campos e Xamã, tem visual bonito mas afunda no roteiro.


Cinco Tipos de Medo é um filme sem grandes problemas na superfície. Visualmente polida, estrelada por bons atores, a produção mato-grossense se perde ao buscar a mesma abordagem do mediano Babel e o péssimo Crash: No Limite, por sorte não alcançando o resultado desastroso do último, mas ficando muito aquém do esperado de seus talentos.

Na trama, Murilo (João Vitor Silva) é um violinista que, após ter quase morrido e ter perdido a mãe para a COVID-19, tenta se adaptar a uma nova realidade. Este reencontra a enfermeira Marlene (Bella Campos), a qual o apoiou durante o período de internação, e desta reaproximação surge um romance, o qual é abalado pela relação desta com um chefe do crime (Xamã). A tentativa do criminoso de manter a mulher ao seu lado leva a uma série  de eventos violentos, com a participação adjacente da policial Luciana (Bárbara Colen) e do advogado criminal Ivan (Rui Ricardo Diaz).



Do ponto de vista técnico não há nada de errado em Cinco Tipos de Medo. A direção de Bruno Bini aproveita devidamente os espaços do frame de aspecto 1.85:1 e experimenta não só com o preenchimento mas com tipos distintos de luz. Vê-se na boa vontade visual o quanto o diretor parece tentar ver as vidas paralelas de forma empática, as imbuindo de vivacidade seja pela movimentação constante do elenco em cena ou por conta da organização de elementos visuais, no que se inclui o excelente uso da fotografia. O elenco também dá conta do recado, com todos trabalhando com fisicalidade e olhares expressivos, evitando o exagero.

Pena que o roteiro infelizmente não siga este ritmo. Na tentativa de se jogar um olhar empático sobre a população humilde cercada pelo crime organizado, Cinco Tipos de Medo faz uso descontrolado de clichês há muito parodiados. Do chefe do morro à figura da policial bondosa (e única isenta de erros deliberados), toda a caracterização escrita parece ter sido concebida pelo time do Hermes e Renato, culminando ao ato falho representado por um dos últimos frames: a figura sagrada no mesmo frame que a arma de fogo.



Cinco Tipos de Medo trata-se de um filme o qual constantemente quer surpreender à partir de mudanças de perspectiva e, às vezes, consegue, porém passada a surpresa, é possível facilmente inferir onde cada rumo da narrativa vai seguir. E, assim como ocorrera com os outros filmes de histórias paralelas citadas acima, cada personagem serve tanto quanto o que lhe foi designado. Com tantas tramas e pouco tempo, não há tempo o bastante para passarmos com aquelas pessoas e, no fim, os estereótipos imperam junto com as situações. Não à toa, a cena mais cativante é a do presídio, onde as figuras dos presos agem exatamente como se pode esperar de um filme envolvendo prisão caricata e o texto potencializa o humor, às vezes intencional e outras vezes não.

Em resumo, Cinco Tipos de Medo tem boas ideias e uma abordagem visual apropriada, mas falha ao abraçar estereótipos e situações simplistas para sua narrativa. Muitas vezes ter uma boa direção pode salvar um roteiro problemático, mas mesmo os elementos positivos desta produção não conseguem sustentar pontos de vista tão anacrônicos.


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