Em Zafari, Mariana Rondón constrói uma distopia sobre desigualdade e privilégio que dialoga diretamente com o mundo de 2026.
Recentemente, ao rever Filhos da Esperança, comentei no Threads que nunca houve uma ficção científica que previsse de forma tão assertiva o mundo vinte anos depois. Se um mundo com baixa natalidade, grupos étnicos sendo confinados ou descartados por agentes estatais de uma grande potência e bombardeios deliberados a regiões habitadas por alguns destes grupos parecia um pesadelo distópico, em 2026 vemos um mundo exatamente igual ao que o filme do grande Alfonso Cuarón retratou.
Há uma surpresa, todavia: o cinema latino está em uma nova ascensão, em especial o brasileiro. Após termos vencido o Oscar com Ainda Estou Aqui, temos grandes chances de repetir o feito com O Agente Secreto. No Peru, por outro lado, há o Zafari, o qual não necessariamente adota para si o viés científico.

O longa dirigido por Mariana Rondón retrata um mundo em que a comida está cada vez mais escassa, mostra um mundo onde os habitantes de um prédio luxuoso têm suas provisões cada vez mais escassas. Tendo que vasculhar apartamentos tanto abandonados quanto habitados em busca de alimentos e formas de utilizar água e eletricidade, Ana (Daniela Ramirez) cada vez mais se envolve em dinâmicas conflituosas tanto com moradores do condomínio quanto com sua própria família.
Enquanto isso, só há um ser vivo o qual tem a garantia de conforto: Zafari, o hipopótamo. Se a alegoria envolvendo um ser o qual concentra recursos enquanto outros passam fome não é nada sutil, o filme não faz questão de despertar simpatia de seus personagens. Existe um microcosmo de personalidades que permite diversos cenários sendo explorados pelo roteiro.
Se temos uma adulta minimamente funcional e adaptativa na matriarca, o marido só consegue demonstrar o ego ferido, pouco auxiliando até, claro, que a violência seja esperada deste. Além disso, os vizinhos oferecem diversos traços definidos, permitindo interações curiosas (tal como o flagrante envolvendo dois vizinhos e a protagonista, o qual acaba por alguma razão levando à discussão de caráter pelo lado mais inesperado da situação).

Não há a busca por complexidade, não há o estudo de personagem, mas sim o de situação, quando um conceito é levado até às últimas consequências e a escalada não decepciona, culminando num final dos mais catárticos e também cruéis.
Se o elenco, especialmente Ramirez, carrega bem a naturalidade inicial e a gradual insanidade esperada pela situação, Rondón usa do frame longo para composições das mais diversas. As buscas por recursos tornam-se verdadeiras aventuras, pois possibilitam uma sorte de elementos de composição de cenário, cores e posicionamentos de elenco. Por fim, se o melodrama não se faz presente, não sobra ironia e humor sarcástico ao longo dos 90 minutos de projeção.
Não se poderia esperar nada diferente num 2026 no qual classes decadentes buscam preservar ao máximo a qualidade material, contanto que não tenha que dividir sua piscina com aqueles em pior situação. Ao contrário de Zafari, no entanto, aqueles que concentram os recursos não estão em extinção.
Zafari – Trailer

Mesmo trabalhando na área de educação, estuda e escreve sobre cinema desde os treze anos. Mesmo vendo muita coisa fora de Hollywood, não é hater de blockbusters (nunca deixa de ver um Velozes e Furiosos quando lança). Ama também ler e jogar videogame. Apenas evita comédias românticas e livros de auto ajuda.