Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é um terror disfarçado de drama cotidiano, conduzido por direção precisa e um grande trabalho de Rose Byrne.
Preciso fazer um mea culpa: meu retorno à crítica após seis anos teve uma abordagem frequentemente tecnicista. Isso se deu pois em 2023 foquei no estudo de aspect ratios e em como cineastas ao longo das décadas trabalharam com os diferentes formatos de tela. A obsessão por isso pode ser perigosa. Quando algum cineasta busca utilizá-los de forma diferenciada, pode soar como uma violência aos olhos dos puristas como eu estava sendo.
Isso me leva a Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, um filme tão convencional quanto seu título. Na trama, Linda (Rose Byrne) é uma psicoterapeuta a qual tem uma rotina extremamente atarefada com a filha debilitada. Tudo literalmente desaba quando o teto de um de seus quartos despenca, gerando uma inundação em seu apartamento e, com isso, as duas passam a viver em um hotel.
Cobrada constantemente pelos médicos, pacientes e pelo pai da menina, Linda busca de todas as formas lidar com sua realidade, incluindo internamente ao contemplar de diferentes formas o que aquele buraco imenso no teto pode significar. Com o tempo, a exaustão toma conta desta e apenas o escape mental passa a não ser o bastante.
Escrito e dirigido por Mary Bronstein, o filme, assim como Marty Supreme, foca em fazer com que sua protagonista passe pelas situações mais inusitadas possíveis. Ao contrário de Josh Safdie, Bronstein não busca apenas a ansiedade ou o humor involuntário e, sim, a tensão digna de um filme de terror. A abordagem visual da cineasta utiliza um frame extenso de 2.39:1 de forma oposta ao que o aspecto foi criado.

A maior parte dos quadros tem o rosto de sua protagonista o preenchendo e, com isso, duas coisas ficam em evidência: a expressividade manifestando o cansaço de Linda (num trabalho espetacular de Rose Byrne) e como aquele mundo imenso impacta a personagem. Falando em rostos, alguns dos coadjuvantes são acertadamente ocultos, com a perspectiva da protagonista sendo o fio condutor.
Trata-se de um trabalho o qual busca alimentar a expectativa do público, comprovando a máxima de Alfred Hitchcock sobre o poder da sugestão e da imaginação. O roteiro, por sua vez, trata de gradualmente criar situação que possam apresentar a personagem, seu relacionamento com a filha e sua necessidade de manter estabilidade para posteriormente arrancar qualquer segurança desta.
O trabalho de edição, o qual equilibra elementos mundanos com o flerte com o sobrenatural, tal como a cena envolvendo duas pessoas sobre uma superfície frágil, é excepcional também. Em Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria não se nota a necessidade de acelerar a narrativa e, ao mesmo tempo, há interesse constante para o que vier.
Trata-se de um terror disfarçado de drama de cotidiano, no qual a atuação incrível de Rose Byrne é sustentada por uma direção e um roteiro sempre dispostos a extraírem seu melhor.
Produzido pela A24, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria está em cartaz nos cinemas.
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria – Trailer

Mesmo trabalhando na área de educação, estuda e escreve sobre cinema desde os treze anos. Mesmo vendo muita coisa fora de Hollywood, não é hater de blockbusters (nunca deixa de ver um Velozes e Furiosos quando lança). Ama também ler e jogar videogame. Apenas evita comédias românticas e livros de auto ajuda.