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Marty Supreme | Uma comédia de erros do americano competitivo

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Marty Supreme surge como uma grande oportunidade para Timothée Chalamet e um elenco afiado brilharem em uma comédia de erros ambiciosa.


Toda temporada de premiação precisa contar com um drama biográfico em larga escala. Ano passado O Brutalista pode não ter sido vencedor do Oscar, porém teve sucesso considerável ao sair da cerimônia com os prêmios de melhor ator, trilha sonora e fotografia. Oppenheimer, no ano anterior, varreu a cerimônia levando, além do prêmio principal, a estatueta de melhor ator.

Notem que além da narrativa de uma história grandiosa baseada em fatos, a constante busca por cinebiografias busca também servir de palco para grandes atuações. O referencial do biografado como persona existente faz com que o ator possa brilhar ainda mais ao poder demonstrar similaridade com a figura na vida real. Basta ver como, mesmo consolidado como um dos melhores atores de sua geração, Philip Seymour Hoffman espantou críticos com uma performance assustadoramente calculada em Capote num ano que já contava com o desempenho lendário de Heath Ledger em O Segredo de Brokeback Mountain

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Não que isso seja novidade para Timothee Chalamet, ator o qual tem galgado uma trajetória em busca de reconhecimento e, como este mesmo ilustrou em um discurso recente, busca “estar ao lado dos grandes”. Em tempos nos quais demonstração de humildade parece ser muito melhor visto do que de fato sê-lo, tal afirmação pode parecer com excesso de ambição, porém não há nada de errado em buscar aprimoramento constante e, com isso, poder ter trabalhos os quais dialoguem com os deuses da categoria, a lá Richard Burton, Lawrence Olivier, Robert De Niro, entre muitos outros. 

Em Marty Supreme, filme de Josh Safdie (separado do irmão Benny, o qual comandou o bom Coração de Lutador recentemente, também colocando The Rock na posição de intérprete de biografado), a história tem como personagem central Marty Mouser, jogador de Ping Pong inspirado no longevo Marty Reisman, o qual decide abandonar a vida de vendedor de sapatos para competir internacionalmente. Tão talentoso e ardiloso quanto exibido e mau-perdedor, Marty, após ser derrotado por um competidor japonês, adapta-se a uma rotina de circense até que uma oportunidade vinda de um magnata (Kevin O’Leary) para uma revanche se materializa.

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O grande problema é que o protagonista se vê obrigado a ter que perder durante a partida, o que, levando em conta o ego mastodôntico deste, é um preço caro demais. Resultando, assim, em uma série de desventuras as quais são extremamente familiares ao tipo de cinema que Josh Safdie se acostumou fazer. Tanto em Bom Comportamento quanto em Jóias Brutas, o diretor tem interesse em trabalhar a desenvoltura de seus atores em retratar o gradual desamparo destes perante as situações absurdas nas quais seus personagens se metem.

De uma banheira despencando de um andar até um tiroteio para resgatar um cachorro, Safdie tanto em roteiro (escrito em parceria com Ronald Bronstein) quanto direção (o frame de 2.35:1, extenso, alterna entre vastos cenários e ambientações e close ups os quais servem tanto para ilustrar as expressões de seus atores quanto para gerar antecipação pelo que não é mostrado) cria uma odisseia do estadunidense mau-perdedor, o qual vê na possibilidade de sucesso a justificativa para tudo. 

O absurdo situacional é amparado não só pela paciência do roteiro em desenvolver cada situação e como esta serve para construir o trajeto do personagem rumo ao sucesso ou ao fracasso (ou quem sabe ambos?), mas pelo trabalho uniformemente impecável do elenco. Começando pelos coadjuvantes, num grupo formado por Gwyneth Paltrow, Abel Ferrara (sim, o cineasta), Kevin O’Leary e Tyler Okonma (ou Tyler, The Creator), entre outros, o qual apresenta uma diversidade de emoções e cenários para Marty lidar, seja a luxúria, lealdade ou ganância.

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Definindo o termo em inglês “supporting actor”, o destaque vai para Odessa A’zion. Assim como a produção engana ao fingir ser uma biografia dramática inicialmente, tanto personagem quanto composição da atriz para Rachel apresentam uma série de surpresas cuja atriz, com seu olhar extremamente expressivo e voz calculada para cada situação, consegue complementar o show de Chalamet perfeitamente.

E falando neste, o ator demonstra seu melhor trabalho aqui. Impressionando de cara tanto pela dicção impecavelmente acelerada quanto pela fisicalidade incrível durante as partidas de Ping Pong, o astro de Duna abandona a voz calma de um Bob Dylan e abraça a fúria e o cinismo juntamente com um olhar assustadoramente frio, ao passo em que parece não conseguir se conter parado. Marty é a antítese dos elegantes Smoke e Stack de Pecadores, do homem altruísta e amargurado de O Agente Secreto ou do pai amoroso de Uma Batalha Após a Outra, dividindo com o último apenas a aptidão para se meter em situações absurdas. 

Encerrando com uma troca de olhares das mais hilárias a qual ilustra com perfeição o caráter do protagonista, Marty Supreme é uma comédia de erros das mais instigantes. São 150 minutos os quais despertam todo tipo de sentimento exaltado, da ansiedade, euforia ou raiva, sempre passando longe da indiferença. É óbvio que, como brasileiro e amante do cinema brasileiro, estou torcendo para o Wagner Moura vencer o Oscar, mas dessa vez, caso Timothée Chalamet leve o Oscar, não será desmerecido. 

Marty Supreme – Trailer


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