Drama Livros Restantes alcança o equilíbrio entre a calmaria e a verborragia intensa.
O cinema brasileiro não se limita apenas a se passar num contexto, como tantos julgam. Quem acha que este só se volta a violência e pobreza não entende a versatilidade de um cinema o qual, mesmo tendo proeminência do drama, contou história das mais diversas nos mais distintos locais. Só em 2025 já tivemos Dormir de Olhos Abertos sendo lançado comercialmente, filme sobre a vivência de imigrantes do leste asiático encarando a experiência da imigração no contexto recifense.
Agora, com Livros Restantes, temos uma narrativa sobre brasileiros sendo os imigrantes, em um momento no qual as mudanças políticas em um contexto internacional pós-segunda eleição de Trump retomam debates sobre xenofobia, exclusão social e patriotismo. No filme de Marcia Paraiso, Ana (Denise Fraga) é uma professora de literatura situada em Portugal prestes a fazer uma mudança definitiva após o crescimento da filha e estabilização financeira. Após ter vendido sua casa, ela passa a devolver os livros remanescentes de sua prateleira àqueles que a presentearam. Neste processo, a mulher revisita eventos do passado, confronta antigos desafetos e se reconecta com pessoas importantes.

Trata-se de um filme aos moldes de outros recentes tais como o excelente O Último Azul e o decente Lispectorante. Em todos estes casos acompanham-se mulheres em meio a reflexões consequentes de experiências de vida e as ambientações trazem tanto alegorias visuais como contextos apropriados para que o roteiro possa trazer novas nuances para a caracterização destas.
Neste sentido, Livros Restantes consegue um equilíbrio interessante entre os silêncios e os diálogos afiados. As passagens nas quais Fraga apenas navega sozinha entre ambientes tais como as praias (sempre pontos turísticos interessantes) intercalam-se com outros nos quais ela observa sua estante sendo esvaziada. Em todos vê-se um cuidado da diretora com composição, prolongando as tomadas para que as ações e reações de sua atriz principal possam ser capturadas juntamente com a beleza dos cenários.

A verticalidade e espaçamento do frame de 1.85:1 permite tanto retratar ambientes profundos como a fisicalidade do elenco. Além disso, cenas nas quais há foco em diálogo alternam entre aquelas nas quais podemos ver os movimentos dos atores perante a dinâmica da conversa (destaque para uma cena envolvendo uma família almoçando e outra com três pessoas numa cozinha). O nervosismo e a euforia gradual durante as conversas, além de mérito do elenco, demonstra confiança na abordagem visual da diretora.
Enquanto isso, o roteiro faz um trabalho mais que apropriado em desenvolver a leveza gradual apresentada pela protagonista. As interações usam da verborragia para as culminações de frustrações, tendo um grau de sutileza notável para as cenas as quais exigem menos explosões (tais como a da cozinha).
Contando com atuações uniformemente boas de seu elenco, Livros Restantes é um drama visualmente agradável e com o grau correto de intensidade em seu roteiro. Consegue abordar a leveza do desapego visual e metaforicamente, estabelecendo-se como mais uma boa opção do nosso cinema em outro momento no qual podemos sonhar com o Oscar devido ao sucesso de O Agente Secreto.
Confira o trailer de Livros Restantes:

Mesmo trabalhando na área de educação, estuda e escreve sobre cinema desde os treze anos. Mesmo vendo muita coisa fora de Hollywood, não é hater de blockbusters (nunca deixa de ver um Velozes e Furiosos quando lança). Ama também ler e jogar videogame. Apenas evita comédias românticas e livros de auto ajuda.