Hamnet - Tópico 42

Hamnet | Atmosfera saudável e grandes atores

Compartilhe:

Hamnet marca o retorno autoral de Chloé Zhao pós-MCU com um drama sensível guiado por silêncio, natureza e grandes atores.


Para quem temia que um projeto malsucedido na Marvel pudesse estragar a carreira de um cineasta, Chloe Zhao veio para provar o contrário. Logo após vencer um Oscar por Nomadland, a diretora teve lançado seu Os Eternos, o qual teve recepção fraca por parte da crítica e uma bilheteria a qual, embora decente para o período de término de pandemia, não foi o bastante seja para cobrir os gastos de produção ou para sustentar posteriores projetos dos personagens apresentados.

Sem projetos super-heroicos pela frente, Zhao foi convocada para Hamnet, um drama sobre o casal Agnes (Jessie Buckley) e William Shakespeare (Paul Mescal), focando na primeira e em sua aceitação de vida como esposa, das ausências de seu marido ao longo de uma trajetória de sucesso teatral e, especialmente, do luto, e acima de tudo no impacto desta dinâmica para a criação de Hamlet (cujo nome se baseia no filho destes, personagem-título). A alguns dias do anúncio dos indicados ao Oscar, uma das poucas certezas é que o filme vem bem recomendado e que temos uma atuação sob medida para a vitória.

Temos um terreno familiar, no sentido de que há a atribuição de uma espiritualidade alicerçada à natureza para a esposa e um pragmatismo alcoólico ao marido. Ecoa-se A Árvore da Vida, porém sem a abordagem etérea de um Terence Malick (Sonhos de Trem tratou de adotar este viés para si). Zhao prefere alternar entre passagens românticas, seja na dinâmica de Agnes e William ou no carinho destes com os filhos, e a tensão pela tragédia a qual prenuncia a criação do clássico poema shakespeariano. Alguns dos arroubos de violência (moral, nunca física) vêm com os planos prolongados da diretora, em especial uma cena envolvendo luz de velas e uma caneca.



O trabalho de criação de atmosfera, em que os silêncios são tão expressivos quanto a poesia manifestada, é saudável, no sentido de que quando os arroubos emocionais surgem, o público teve tempo suficiente de contemplação  daquele mundo e de como cada personagem atua. O casal principal pode ser o elemento mais importante, porém os coadjuvantes memoráveis (a avó que redescobre a compaixão interpretada por Emily Mortimer, o irmão zeloso de Joe Alwyn, por sinal um ator cuja discrição e segurança apresentada aqui e anteriormente em O Brutalista são mais que bem-vindas) são base de sustentação para o tema e o clima buscados. A sustentação familiar contrapõe a imprevisibilidade da natureza.

O que também se pode agradecer é que, longe do modo de produção Marvelístico, Zhao pode exercitar seu papel como diretora de atores novamente (Eternos era lotado de momentos a lá David Yates nos quais os atores olhavam para o nada, perdidos) e, com isso, temos atuações incríveis do começo ao fim. Além dos já citados Alwyn e Mortimer, há Paul Mescal trabalhando em território familiar após Aftersun, juntando paternidade com melancolia, o incrível Jacobi Jupe, cuja segurança e expressividade como Hamnet são cruciais para nos preparar para os rumos da narrativa e, claro, Jessie Buckley, que por sinal é a grande favorita ao Oscar este ano. 

Com um trabalho vocal rígido porém melódico, a atriz permite que sua linguagem corporal demonstre cada variação de humor desta seja pelos gestos ou por meio de suas expressões faciais e seu posicionamento. Agnes pode estar deitada, sentada, de joelhos ou de pé, cada posição adotada por esta demonstra um humor diferente perante situações das mais distintas. O que nos leva aos últimos minutos, os quais trazem certa ruptura perante o que estava sendo construído.

Sem entrar em detalhes, há uma esperada manifestação teatral a qual serve como o clímax, porém a dinâmica entre personagens é no mínimo anacrônica. Revisitar Contatos Imediatos de Terceiro Grau (Spielberg por sinal é produtor de Hamnet) e perceber como o protagonista masculino era “livrado” dos compromissos familiares é algo já problemático para um filme de 1977, e em Hamnet há este mesmo tipo de perdão após evidentes episódios de negligência.

O ponto defendido é de que a arte redimiu o descaso (manifestando-se na pior cena do filme, a qual prolonga-se para conseguir lágrimas de seu público, sendo que até então o sentimentalismo estava bem dosado), tendo sido um mecanismo para lidar com o luto. De um ponto de vista externo consigo entender o que Hamnet e seus realizadores quiseram manifestar, porém trata-se de uma perspectiva no mínimo individualista e no máximo machista, além de trair a jornada de Agnes, a qual acaba sendo relegada ao papel de mãe sofredora e estoica. 

A fantasia do pai de família o qual tem direito de aventurar-se enquanto o lar desmorona é algo que, em tempos do paternalismo nocivo da política (extremado pelos líderes políticos surgidos nos últimos dez anos), deveria ser questionado em vez de defendido. É difícil entender um mundo que pede por narrativas diversas, porém insiste em abraçar tropos machistas.

Sim, Hamnet é um bom filme e os últimos vinte minutos não diminuem os êxitos obtidos por Zhao e seu elenco. Porém, mais do que nunca, se queremos narrativas empáticas, os realizadores precisam sê-lo acima de tudo. 

Trailer – Hamnet


Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *