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Dormir de Olhos Abertos | A beleza e o desconforto 

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Dormir de olhos abertos, filme brasileiro de diretora alemã, trata sobre imigrantes chineses e brilha com abordagem cuidadosa.


A experiência do indivíduo, deslocado por conta de suas próprias convicções, tendo que abraçá-las em meio a um ambiente o qual o confronta, é um dos grandes temas do cinema brasileiro. Usualmente, estas histórias associam-se a jornadas particulares do brasileiro nativo, o qual passa por uma travessia diária para navegar de uma cidade dormitório até a metrópole, onde a normalidade é um confronto por si só. 

Portanto, é curiosa a escolha da alemã Nele Wohlatz de abraçar a estética e temáticas particulares do cinema brasileiro justamente para retratar os conflitos externos e internos de imigrantes chineses em Recife. Quem convive com a hostilidade de redes sociais já se deparou claramente com a xenofobia festiva contra povos asiáticos, especialmente num momento de ascensão chinesa absoluta perante a desesperada tentativa dos Estados Unidos de manter sua hegemonia não só enquanto economia, mas cultura. 



A câmera da diretora, então, faz questão de organizar os atores e elementos cênicos com uma ilusão de ordem (incluindo a fotografia vibrante), explorando a verticalidade do frame de aspecto 1.85:1, não demorando para que os choques venham não de explosões óbvias e, sim, dos dilemas de deslocamento, incompreensão e solidão se manifestando. 

A naturalidade do elenco, formado majoritariamente por chineses, auxilia na imersão e evita que o roteiro tenha que se abarrotar de explicações. Os esforços dos personagens de se comunicar, o conforto que estes sentem ao encontrarem outros de mesma origem, além da exaustão do processo adaptativo, são retratados, ironicamente, sem esforço. 

Uma das primeiras cenas, filmada com longos takes da diretora, envolve uma das protagonistas (Liao Kai Ro, excelente) tentando ter um momento de paz sem ter que comprar nada (um dos interesses de países ao receber imigrantes é de fato econômico, direta ou indiretamente). Pouco depois, esta tenta ter uma experiência com comidas típicas e se vê bebendo álcool enquanto tenta comunicar-se com outro estrangeiro. 



A simplicidade estressante de situações e das conversas com as quais os personagens interagem transformam a produção numa experiência tão incômoda quanto bela. Não há necessidade de grandes movimentos de câmera, porém a organização de elementos e atores aliada ao carisma do elenco e a uma boa escrita são mais que o bastante para cativar.

Dormir de Olhos Abertos é, portanto, um filme propício para um momento no qual as pessoas pedem por inclusão ao mesmo tempo em que rejeitam, seja implícita ou explicitamente, qualquer cultura a qual possa servir de contraponto. A chegada do desconhecido ainda demonstra um desafio para milhares, tanto quanto a busca eterna por acolhimento, inerente ao ser humano. 

Saiba mais sobre o filme:

Lançado mundialmente no Festival de Berlim, DORMIR DE OLHOS ABERTOS foi eleito o melhor filme na mostra Encontros pela Fipresci (Federação Internacional de Críticos de Cinema). Em seguida, fez um longo percurso com passagens por alguns dos festivais mais importantes do mundo, como IndieLisboa, Kárlovy Vary, San Sebastián, Mostra de Cinema de São Paulo e Festival do Rio, sua estreia nacional, com uma sessão apresentada por Kleber Mendonça Filho. A obra é uma coprodução entre Brasil, Argentina, Taiwan e Alemanha e é distribuída pelo projeto Sessão Vitrine Petrobras.

Confira o trailer de Dormir de Olhos Abertos:


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