Em Dollhouse, temos um terror que explora temáticas clássicas brincando com a imaginação do público.
Poucas fórmulas são tão antigas e efetivas quanto a do brinquedo diabólico. O clássico caso do brinquedo querido de uma criança aterroriza audiências há quase tanto tempo quanto as crianças diabólicas. Não faltam casos especialmente no Brasil de pessoas jogando bonecos fora após terem assistido à franquia Chucky, uma veterana do SBT, e a década passada revitalizou o subgênero com a boneca Annabelle. Recentemente a Megan trouxe o contexto da inteligência artificial, acrescentando ao “multiverso dos brinquedos maus”.
Na era do “Bebê reborn”, o boneco realista que levou pessoas adultas a fantasiarem sobre famílias, tendo até situações de pessoas os levando a hospitais e matérias de psicologia acerca dos efeitos disso, era natural que os cineastas de terror decidissem revitalizar os brinquedos diabólicos com essa premissa. Eis que os japoneses passaram na frente, com Dollhouse, e com bons resultados.

Escrito e dirigido por Shinobu Yaguchi, o filme tem como personagem central Kae (Masami Nagasawa), uma mulher a qual, após um evento traumático, compra uma boneca realista numa feira de antiguidades (outro ambiente propício para o sobrenatural). O roteiro, ao dedicar certa progressão à relação da mulher com a boneca, leva à expectativa de uma narrativa sobre como a mulher irá desenvolver um vínculo nocivo com esta. Porém, ao fazer esta ter uma filha a qual desenvolve um vínculo com o brinquedo, Yaguchi periga trafegar em terreno conhecido.
De fato, para quem viu Brinquedo Assassino à exaustão (como quem vos fala), à princípio não parece haver muito de novo, porém o roteiro ainda assim encontra ótimas soluções para dar vida à boneca. Há uma narrativa acerca da origem deste que jamais toma tempo demais das situações aterradoras, nem mesmo deixa que os personagens percam sua agência.
A família toda ganha devida atenção, desde a mãe (muito bem interpretada por Nagasawa), que tenta evitar a frustração, passando pelo pai tão prestativo quanto apático, e, por fim, os pobres secundários que têm o azar de cruzar o caminho com o brinquedo. A temática é recorrente no cinema japonês: os perigos da supressão do luto e da tristeza, e, desta vez, manifestada pela violência (mais sugerida do que gráfica) em cena.

Yaguchi, por sua vez, faz um trabalho mais que apropriado na direção, dedicando planos extensos e movimentos de câmera os quais brincam com a imaginação do público. A preferência do diretor é por uma movimentação a qual navega pelo cenário uma vez para estabelecê-lo visualmente e, mais uma vez, para trazer uma “novidade”, tudo isso aproveitando frequentemente a altura do quadro, em um frame de 1.85:1 (não tão frequente nas grandes produções japonesas, mas um velho conhecido do gênero terror).
Acertando em especial ao pavimentar o caminho para uma conclusão a qual brinca com o desespero do público por um final feliz, Dollhouse traz uma bem-vinda adição tanto a um subgênero lucrativo como ao mais que lendário cinema de terror japonês. Se ainda não teve seu nome ao lado de gênios tais como Kaneto Shindo ou Nobuo Nakagawa, já dá pra esperar coisas muito boas de Shinobu Yaguchi caso este continue envolvido com histórias horripilantes.
Distribuído pela Sato Company, Dollhouse chega aos cinemas nesta quinta-feira, dia 06 de novembro.
DollHouse – Trailer

Mesmo trabalhando na área de educação, estuda e escreve sobre cinema desde os treze anos. Mesmo vendo muita coisa fora de Hollywood, não é hater de blockbusters (nunca deixa de ver um Velozes e Furiosos quando lança). Ama também ler e jogar videogame. Apenas evita comédias românticas e livros de auto ajuda.