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Coração de Lutador | Os benefícios da derrota

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Coração de lutador, filme de Benny Safdie, dá ao público o prazer dos baixos mais do que dos altos.


A década de 2010 foi dominada por grandes franquias, mas num período no qual as pessoas vão ao cinema pra ver personagens, com raras vezes priorizando seus atores, Dwayne Johnson, o The Rock, foi uma franquia por si só. O ex-lutador de MMA transformado em estrela de cinema surgiu em tantos blockbusters após ter sido alavancado de vez em Velozes e Furiosos 5: Operação Rio que acabou tornando-se, gradualmente, motivo de piadas por suas evidentes imposições para manter a imagem de herói poderoso e por seu ego mastodôntico. 

O auge da megalomania teve um final trágico quando o brucutu resolveu produzir e estrelar Adão Negro, um filme tendo como protagonista originalmente um vilão do universo do Shazam. A ideia, em meio a um universo DC construído com base em muitas frustrações, foi tentar colocar o personagem como a nova peça principal, porém mesmo com uma bilheteria decente, o projeto custou caro demais e perdeu dinheiro, com um reboot do universo DC sendo anunciado imediatamente após a saída deste dos cinemas.

O que ninguém esperava é que tal situação levaria a uma DC revitalizada, com Superman de 2025 liderando entre os filmes de super-herói nas bilheterias e repercussão entre público e também a um Dwayne Johnson tendo caído nas graças da A24, produtora de filmes independentes a qual emplacou diversos sucessos nos últimos dez anos. 



Dirigido por Benny Safdie, um diretor que, junto de seu irmão Josh, mostra-se extremamente interessado por desafiar atores que passaram anos sendo vistos como cabeças de franquias e produtos pasteurizados (Bom Comportamento, com Robert Pattinson, e Jóias Brutas, com Adam Sandler, Coração de Lutador (The Smashing Machine) é uma cinebiografia sobre Mark Kerr (Johnson), lutador de MMA o qual teve um início explosivo, tendo vencido diversas lutas graças a seu tamanho imenso e aparente proporcional autoconfiança. 

O problema é que para manter estes dois elementos que (figurativa e literalmente) sustentaram seu sucesso, Kerr viciou-se em remédios e opioides. Quando não só sua saúde como seu relacionamento com Dawn (Emily Blunt) mostram-se abalados, o lutador decide redescobrir-se, iniciando o processo na reabilitação médica.

O roteiro de Coração de Lutador desafia a estrutura convencional do gênero ao focar-se não na trajetória de início humilde – sucesso – queda – sucesso de novo, e sim no processo de aceitação da derrota por parte de Kerr. O vício pela vitória (o qual vira comentário óbvio sobre a cultura estadunidense) leva a uma angústia imensa gerada pela simples possibilidade de empate e, nisso, o sucesso do protagonista é retratado de forma rápida, deixando a maior parte dedicada para o recomeço. 

Com isso também, toma-se a decisão inteligente de retratar em paralelo às turbulências do relacionamento do casal principal (no qual a saúde mental e o desejo por dominação mostra-se um demônio para ambos), o sentimento de fraternidade masculina durante as lutas.



Além de uma total recusa pela figura do rival antipático, o longa apresenta o simpático Mark Coleman (Ryan Bader), o qual irônica e inocentemente encontra na queda do melhor amigo a oportunidade de sua própria ascensão. As trajetórias opostas dos dois homens é retratada de forma madura, sem perder de vista o conflito do protagonista e fugindo das convenções dos melhores amigos que precisam se enfrentar. 

A sorte maior de Coração de Lutador está em ter Safdie como diretor. Sempre pelo equilíbrio entre o visceral e pelos retoques estéticos, o cineasta evita os cortes  frenéticos, porém desperta a inquietação ao retratar o elenco, em planos longos e de corpo inteiro (frame de 1.85:1, apropriado para tal), andando pelo cenário e interagindo com elementos dos mais distintos. 

Tendo ciência de que uma boa cena é basicamente um pequeno filme em si, o diretor as constrói com começo, meio e fim: uma interação do casal ao ar livre envolvendo um cacto utiliza da agitação (enquanto tenta conter certos desejos) de Kerr, o qual não consegue se sentar ou conversar sem manifestar frustrações, e da aparente calma de Dawn (Blunt, incrível) para estabelecer pontos de ruptura entre estes. 



E claro, Safdie não perde a oportunidade de fazer Dwayne Johnson confrontar sua persona de “herói legal da galera”. Retratando Kerr como um sujeito que quer mostrar-se um campeão inabalável, porém que chora como uma criança ao ser confrontado com uma possível derrota. Johnson, apoiado pela excelente maquiagem de Kazu Hiro, constrói uma performance apropriadamente física, porém é nos momentos em que temos a certeza de paz do personagem que fica escancarado o trabalho cuidadoso feito pela produção.

Mantendo a tradição dos “filmes de ator com um toque de verdade” vista em A Baleia e O Lutador, Coração de Lutador utiliza da persona de seu astro e de sua trajetória de campeão inabalável para construir um filme à moda antiga, num sentido em que o público pode confortavelmente sentir-se… desconfortável. 

Há, como costumava haver, o prazer de descobrir uma narrativa sem ter certeza do que o final vai apresentar e, acima de tudo, o de saber que um dos maiores fazedores de dinheiro dos últimos anos não vai ficar marcado como “O homem que tentou dar o golpe na DC”. Vamos aguardar para ver o que o Oscar vai pensar disso.

Com distribuição da Diamond Films, a maior distribuidora independente da América Latina, Coração de Lutador (The Smashing Machine) estreia nacionalmente em 2 de outubro nos cinemas. 


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