Um mês depois da estreia, revisitamos Avatar: Fogo e Cinzas e temos algumas impressões.
Avatar: Fogo e Cinzas é o último lançamento de James Cameron, o lendário cineasta por trás não só da franquia dos seres azuis como de Titanic, O Exterminador do Futuro 1 e 2, Aliens, enfim, diversas grandes contribuições ao cinema. Depois dos mais de dois bilhões de dólares de Avatar: O Caminho da Água, parecia certo que a franquia teria sempre como piso de arrecadação pelo menos os dois bilhões, mas o terceiro filme, apesar de ter já ultrapassado a marca do bilhão antes da virada de ano, parece ter poucas chances de passar dos dois.
Após a segunda visita ao filme consegui entender melhor por que este foi mais divisivo que seus predecessores. É preciso estabelecer as expectativas: Avatar 3 é um entretenimento de qualidade, com valor de produção incrível, efeitos especiais da maior qualidade os quais surpreendem nos detalhes de textura e iluminação cada vez mais e a direção competente e grandiosa que podemos esperar de Cameron.
É preferível sessão em salas Imax, não por capricho, mas porque o frame alto de 1.90:1 é exibido devidamente, e o capricho do diretor não é pouco. Há muitos elementos verticais, vide a chegada dos navios voadores ou a comitiva dos animais marinhos e muita movimentação de personagens, tudo isso em ambientações as quais valorizam a qualidade dos efeitos visuais.

Devo dizer que a minha primeira experiência com Fogo e Cinzas foi extremamente proveitosa: os três anos sem revisitar o universo de Pandora trouxeram uma sensação de reencontro das mais prazerosas. Em revisita, por outro lado, foi possível ver uma série de questões que fazem com que o filme sofra em retrospecto. Primeiramente, O Caminho da Água se beneficiava de uma nova ambientação, e tratava-se de um raro blockbuster moderno o qual tinha como ápice justamente a porção do meio, quando conhecíamos o povo da água e sua dinâmica com a natureza.
Dava-se uma pausa na trama, a qual nunca foi o ponto alto dos filmes (Cameron trabalha com arquétipos dos mais básicos), e o foco era na apreciação da vastidão aquática. Fogo e Cinzas introduz o povo do fogo, porém pouco faz para mudar a dinâmica em relação ao filme anterior. Passamos mais tempo nos mesmos lugares que já visitamos e com muito mais tempo sendo usado para batalhas bem filmadas, porém com ocorrências e riscos idênticas ao que já vimos.
Sim, existe dessa vez um trabalho de personagens: os pais enlutados, o filho negligenciado, o filho adotivo deslocado, a filha em busca de conhecimento. Todos estes alcançam metas estabelecidas de antemão, porém com exceção talvez do filho adotivo (ecos de Tarzan?), não há a sensação de aproveitamento apropriado para os personagens. Assim que os dilemas se estabelecem, sabemos como estes irão concluir, ainda porque alguns destes nem precisariam ser iniciados, vide o trauma que Jake Sully sente em navegar como o Toruk Makto.

E falando em aproveitamento decepcionante, o povo do Fogo encaixa-se neste padrão: introduzidos de forma ameaçadora e com uma personagem a qual traz uma nova dinâmica de vilania para aquele universo em Varang (ótima performance em captura de Oona Chaplin), há com eles a expectativa de uma batalha interessante devido ao niilismo destes em contraponto à espiritualidade das outras tribos.
Todavia, estes são esquecidos na última das três horas de duração quase que por completo, soando mais como comparsas dos humanos na batalha mais grandiosa, longa e redundante da franquia. O arco de Quaritch, de vilão cuja fraqueza é o contato com o filho, também ganha um desfecho mais preocupado com a extensão do personagem enquanto arquétipo do que com a consistência deste.
No fim das contas, o grande problema de Avatar: Fogo e Cinzas é o de justamente não trazer grandes novidades. Não havia problemas com uma trama básica anteriormente, porém desfrutar de uma atmosfera prazerosa com visuais impressionantes era o que havia de mais recompensador. O terceiro capítulo troca o clima por uma trama inconsistente e cenas de ação tecnicamente impressionantes, porém sem impacto narrativo.

Talvez o cansaço tenha sido sentido pelo diretor também. Não faltaram declarações deste de que talvez embarque em outro projeto agora, especialmente Ghosts of Tsushima. James Cameron é um dos grandes nomes de Hollywood e demonstra ainda mais vitalidade após os setenta anos do que anteriormente. Quem sabe o talento deste e sua vontade de elevar os padrões tecnológicos não nos tragam outros grandes filmes em outros universos?
Até lá, posso dizer que a trilogia Avatar foi satisfatória, mas Toruk Makto merecia um voo por cenários mais empolgantes.
Avatar: Fogo e Cinzas – Trailer

Mesmo trabalhando na área de educação, estuda e escreve sobre cinema desde os treze anos. Mesmo vendo muita coisa fora de Hollywood, não é hater de blockbusters (nunca deixa de ver um Velozes e Furiosos quando lança). Ama também ler e jogar videogame. Apenas evita comédias românticas e livros de auto ajuda.