Apesar de suas semelhanças com o trabalho de Pedro Almodóvar, A Miss constrói seu próprio caminho ao abraçar o contexto familiar brasileiro.
Iêda (Helga Nemeczyk), uma mulher que precisa criar sozinha seus dois filhos, Martha (Maitê Padilha) e Alan (Pedro David), acaba gerando conflitos ao espelhar suas frustrações na filha, obrigando-a a participar de concursos de miss. Para fugir dessas expectativas, Martha coloca seu irmão gêmeo em seu lugar.
A Miss, dirigido por Daniel Porto, pode parecer familiar para quem conhece a obra de Pedro Almodóvar. Tal qual o espanhol, o diretor aqui se utiliza de relações dentro de uma família e suas adjacências para discutir sexualidade e gênero. Com um humor escrachado, ele se utiliza desse subterfúgio para conduzir quem assiste ao filme a conversas muito maiores; o melodrama e a comédia são ferramentas políticas no filme.

Apesar da comparação inevitável com o trabalho de Almodóvar, o maior acerto do filme é não se prender a ele, mas apenas buscar inspiração, fazendo de sua história algo que pode ser descrito como “o puro suco do Brasil”: o subúrbio, a mãe autoritária, mas carinhosa com os filhos, a mulher que precisa trabalhar para sustentar uma casa sozinha e que precisou desistir de seus sonhos muito cedo, por isso os espelha na filha, que, por sua vez, se utiliza do irmão como forma de escapar dos braços da mãe. Relações assim são banais em nosso contexto, mas são muito bem utilizadas aqui para criar identificação.
O humor e o núcleo familiar relacionável são um trunfo importante: uma mãe solo com um casal de filhos e um melhor amigo é uma constituição comum no Brasil. Esses pequenos detalhes, aliados ao bom humor, são uma arma interessante para atrair o grande público, que, em um primeiro momento, poderia rejeitar o filme se ele fosse vendido como um filme puramente LGBT. Atrair as pessoas através de risadas enquanto planta nelas discussões importantes é uma estratégia válida num país que ainda tem a tendência de ignorar histórias de minorias.

A Miss segue a tradição cinematográfica de se utilizar do núcleo familiar e do humor criado por suas relações para construir uma narrativa que vai além do pastelão e do mero entretenimento, mas o converte em ferramenta política para enraizar discussões importantes sobre gênero e sexualidade no espectador comum, que pode ter entrado na sala de cinema querendo apenas relaxar e dar algumas risadas.
A Miss – Trailer

Mais um jornalista de cultura pop e otaku nas horas vagas.