Muito além da estética delicada, Diários de uma Apotecária revela um mundo de opressões e intrigas políticas.
Em um primeiro momento, Diários de uma Apotecária pode parecer apenas mais um anime de época, mas basta alguns episódios para perceber que, por trás de toda a estética suave e delicada, escondem-se críticas à sociedade, personagens complexos e uma protagonista que desafia as convenções do gênero. As duas primeiras temporadas da obra introduzem um olhar sobre esse mundo e o consolidam, tornando-se assim um dos melhores animes da atualidade, oferecendo conteúdo histórico e social.
Maomao é a força motriz do anime, uma jovem apotecária vendida como serva para o harém imperial. Ao invés de se render ao destino, ela decide usar seu conhecimento em medicina, venenos e alquimia para sobreviver e, mais que isso, para compreender o mundo ao seu redor. Seu olhar cético, quase sempre acompanhado de comentários sarcásticos, é uma das grandes virtudes da obra: ela observa o luxo e os jogos de poder com o mesmo rigor com que analisa os sintomas de uma doença.

O anime não se preocupa em romantizar a vida no palácio. Pelo contrário, explora o lado claustrofóbico e cruel das estruturas de poder, com mortes misteriosas, rivalidades silenciosas e uma permanente sensação de que ninguém é realmente livre, revelando críticas sociais escondidas no decorrer da trama.
O relacionamento entre Maomao e Jinshi, o misterioso e belo funcionário de alto escalão, também é um ponto alto. Ao invés de se apoiar em clichês românticos fáceis, o anime constrói uma relação baseada na inteligência e na desconfiança mútua, criando uma curiosidade crescente entre ambos e, aos poucos, desenvolvendo seu relacionamento.

Talvez o maior mérito de Diários de uma Apotecária seja conseguir equilibrar muito bem sua trama política e de mistérios, tocando em temas como desigualdade social e relações patriarcais sem abrir mão do humor e sem utilizá-lo para minimizar os temas que aborda em seus episódios. É raro encontrar obras que fazem isso tão bem, além de, ao mesmo tempo, construir um romance cheio de nuances entre seus protagonistas, sem nunca parecer algo “barato”.
Com duas temporadas consistentes, o anime se consolida como uma das melhores obras para se acompanhar na atualidade. Divertido e apaixonante, mas sem deixar de retratar as opressões sutis que aquele universo apresenta. Maomao não é uma heroína tradicional, e talvez seja justamente isso que a torna tão marcante.

Mais um jornalista de cultura pop e otaku nas horas vagas.